O sonho de Priscila Aprígio Silva, de 13 anos, era seguir a profissão do irmão mais velho e da cunhada: ser enfermeira. A menina foi atingida por uma bala perdida durante o assalto a uma agência do Itaú, em Moema, na zona sul de São Paulo, anteontem, em que outras cinco pessoas ficaram feridas – inclusive dois bandidos. Uma bala acertou um dos rins e ficou alojada na medula de Priscila, que corre o risco de ficar paraplégica.
?Os médicos falaram que só se acontecer um milagre a minha filha volta a andar. O que eu mais quero é ver a Priscila brincando, pulando, correndo pela rua e feliz?, disse o pai, o sapateiro Isaías Joaquim da Silva. A mãe, Maria Fátima, caía em prantos ao lembrar que falou com a filha dois minutos antes da tragédia. ?Ela me ligou e disse que tomou um tiro nas costas. Depois parou de falar. Fiquei desesperada?, relatou. ?Espero que ela fique boa, que volte a andar, porque é muito jovem?, prosseguiu, cobrando a punição dos assaltantes.
Ontem, as críticas ao resgate da jovem ainda repercutiam. Logo após ser baleada no abdome, Priscila foi carregada por três PMs até um hospital. A cena choca. Faz parecer que os policiais foram tomados pela emoção e deixaram de lado os cuidados básicos. ?Mas não há o certo ou errado nesse tipo de situação?, diz a responsável pelo Núcleo de Traumas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Simone Abib. ?Às vezes, não dá para fazer o ideal, mas o melhor possível.
?A decisão foi correta. Os PMs têm preparo e a levaram para o hospital a partir do momento em que ela parou de falar?, defendeu o tenente Marcos das Neves Palumbo, do comando do Corpo de Bombeiros. Ele explicou que os PMs entraram em contato com o resgate, que enviou socorro. ?Se esperassem, ela teria parada cardíaca e discutiríamos o enterro dela, não eventuais seqüelas? diz. ?O ideal é manter a vítima respirando, em superfície rígida, e estancar o sangue. Mas, para esse tipo de trauma, não dá para dizer estavam errados?, afirmou Celso Terra, um dos coordenadores do Samu (serviço de urgência da Prefeitura).
Depois da cirurgia para a extração da bala, Priscila ficou na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Alvorada. Hoje os médicos devem avaliar as possíveis seqüelas.
Outra vítima em estado grave é Raimundo José Jesus dos Santos, de 39 anos. Ele foi atingido por um tiro de alto calibre na panturrilha esquerda, dentro de um ônibus. Teve lesão de artérias e veias, já reconstituídas, e está sob observação na UTI do Hospital Iguatemi. No mesmo ônibus estava Maria Enildes de Jesus Nascimento, de 58 anos, que levou um tiro de raspão e foi liberada anteontem.
O advogado Fábio Ferreira Nascimento, alvejado após se negar a entregar o carro aos assaltantes, passou por cirurgia no pulso e deve ser liberado no fim de semana. Um dos criminosos, Wellington Oliveira, levou nove tiros e precisou ser atendido no Hospital Pirajuçara, em Embu. Passou por cirurgia na perna e permanecia ontem no pós-operatório.