Até o PT está preocupado e decide ouvir o ministro da Segurança Alimentar, José Graziano. Quer saber o que todos querem: o que está havendo com o programa Fome Zero, prioridade das prioridades do governo Lula? Por que tanta demora em coisas simples como o anúncio de contas bancárias e locais apropriados para receber as generosas doações que brotam de todos os cantos do Brasil?

Além do partido que engendrou o programa, também o Senado está preocupado. Na quarta-feira, em debate de mais de duas horas, alguns senadores buscavam uma brecha para censurar Graziano. Não apenas pelo vexame nacional revelado pelo cheque de R$ 50 mil da modelo Gisele Bündchen, que desde janeiro aguarda uma oportunidade de encaminhar a doação feita diante das câmeras, mas pela escorregada do ministro em discurso na sede da Federação das Indústrias de São Paulo, quando exortou os empresários a investirem no Nordeste sob pena de terem de continuar andando de carro blindado.

No pedido de censura, os autores afirmaram que a declaração do ministro “é pior que algumas práticas dos neonazistas da Alemanha, que não admitem as migrações”. À época Graziano tratou de livrar a pele e forneceu algumas explicações, sim, mas mostrou-se, segundo consideram alguns parlamentares, outra vez arrogante ao sugerir que os que se sentiram indignados “canalizem essa energia para o desafio maior: o da reconstrução do Brasil”. Depois de muita discussão e negociação, a proposta de censura foi transformada na convocação do ministro para explicações. A data não foi ainda marcada.

No Senado e no governo a questão tem ingredientes políticos. Seria, de fato, um vexame ter o responsável pela principal ação do governo até aqui manifestada sob censura. Mas as manobras para evitar que isso acontecesse não diminui o problema que – diante do clima criado e dos anúncios repetidos – interessa à nação inteira. A verdade é que, a essas alturas, explicações só não bastam. Além de Gisele, também o Ibama – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis – arrecadou quase R$ 40 mil e, desde o dia 22 de fevereiro não conseguiu o endereço bancário onde depositar a ajuda aos famintos. As cooperativas agrícolas também esperam há mais de dois meses a indicação de local seguro onde depositar toneladas de alimentos.

Pressionada de todos os lados, a equipe de Graziano acaba de fornecer o número de duas contas bancárias que, segundo diz, estavam abertas há muito. Não teriam sido divulgadas à falta de gente capacitada para operar uma linha telefônica tipo 0800 – ainda em treinamento. A desculpa encontrada é, como diz o ditado: pior a emenda que o soneto. Um simples 0800 quase derrota a burocracia sobre a qual está montado o Fome Zero. O que esperar de problemas muito mais sérios, já levantados no “campo de batalha”, onde são distribuídos os R$ 50 por família? Ou, como querem outros, onde encontrar a lista dos cerca de 50 milhões de famintos até aqui referidos?

É uma pena que coisas do gênero estejam acontecendo. Dificuldades e problemas seriam de esperar, mas não no nível que estão se sucedendo, a tal ponto de colocar em risco o programa sobre o qual foram geradas tantas expectativas. O Fome Zero, antes que segurança alimentar – seu objetivo final – ao povo que se mobiliza para doar e para receber, precisa dar à sociedade mais que explicações: a sensação de segurança em sua execução. Até aqui, nada feito.