“Silêncio ensurdecedor”

Que não haja mais aquele ânimo inicial na equipe de governo que foi para Brasília há menos de dois anos, cheia de “vontade política” para mudar tudo o que aí está, é coisa até compreensível. Afinal, nada como um problema atrás do outro para amadurecer idéias, sugerir cautela e exigir prudência. Mas que as coisas tenham que chegar onde chegaram é um mau presságio. Para cumular, um filme velho e já visto começa a ser exibido diante dos atônitos brasileiros que apostaram tudo numa nova era de ética e de limpeza na política: a crise na base aliada, segundo a crônica brasiliense, está sendo contornada na base do arrombamento dos cofres públicos. Como antes.

Estamos num momento importante da vida nacional, onde os prefeitos amotinados pedem mais autonomia, mais dinheiro e menos responsabilidade. O resultado das urnas redesenhou o mapa político e sobre o novo mapa já se especula a próxima eleição, de 2006, com muitos ainda defendendo a tese de Lula que já está lá, lá de novo. Na birra da reeleição se engalfinham também os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, dispostos a não largar seu quinhão de poder. Mais de duas dezenas de medidas provisórias emperram a pauta do Congresso que, além disso, tem outras coisas importantes para votar. Mas não vota porque a base aliada entendeu fazer valer o princípio da velha política do “é dando que se recebe”. Só vota se o governo mostrar boa vontade. E boa vontade, lá na ilha da fantasia e dos sonhos chamada Brasília, is money.

Num primeiro tempo, o assalto ensaiado aos cofres da nação significaria a bagatela de seiscentos milhões de reais em emendas do Orçamento deste ano, destinadas, em tese, ao financiamento de obras importantes. O noticiário não desmentido refere o compromisso que o presidente Lula teria arrancado da área econômica – a mesma que nos suga o bolso pelo lado das taxas, impostos e contribuições. Amuado, o presidente teria até deixado de almoçar com líderes dos partidos na terça-feira que passou. Que fazer? O novo bode expiatório é o ministro do Planejamento e Orçamento, Guido Mantega, já apontado como o “campeão da má vontade” para com o Congresso, ao lado de outros condestáveis, como o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.

As lideranças dos partidos que dão sustentação ao governo do presidente Lula (além do PT, o PMDB, o PTB, o PL e o PSB) acham pouco os seiscentos milhões prometidos e pedem mais. Exigem que o governo empenhe todas as emendas dos parlamentares ao Orçamento deste ano, que somam R$ 1,2 bilhão. E não bastam apenas promessas. “Ninguém vai entrar para votar enquanto essa liberação não estiver no papel”, advertiu o líder do PL, deputado Sandro Mabel.

A princípio, a liberação de uma emenda ao Orçamento seria algo saudável. Representaria dinheiro para a realização de alguma obra ou ação de interesse de alguma comunidade, que foi inscrita através de um parlamentar. Entenda-se, entretanto, coisa diversa. No toma-lá-dá-cá de nossa política viciada, significa o compromisso do voto em alguma coisa ou tese em troca de outra. Um pagamento, portanto, de um favor. Aconteceu na emenda da reeleição de Fernando Henrique Cardoso e em muitos outros momentos importantes da vida nacional. Acontece agora na reeleição dos atuais mandatários do Congresso e, sem dúvida, significa o ensaio para o apoio necessário à reeleição do presidente Lula, que nunca disfarçou sua intenção continuísta. Em função de tantos interesses, o clima em Brasília não é nada bom. No início da semana, um jantar, precedido de reunião política para tentar aparar arestas e promover acordos, foi descrito como constrangedor pelo silêncio da maioria que, sem muito o que dizer, preferiu só ouvir. Como se definiu depois, era um “silêncio ensurdecedor”.

O exemplo que vem de cima, por essas e por outras, é o pior possível. Não é à toa que uma de nossas mais tristes estatísticas classifica 70% do dinheiro da lavagem no País como proveniente da corrupção. Poucos dos que se dedicam à causa pública – e infelizmente nossos políticos não estão entre eles – são capazes de cumprir a obrigação para a qual já são bem remunerados sem levar algum tipo de vantagem.

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