Sempre atenta às questões sociais, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil dá um palpite importante na política brasileira. Seu presidente, o cardeal-arcebispo de Salvador, dom Geraldo Majella Agnelo, entende que se o governo federal não mudar, o PT colherá fragorosa derrota nas próximas eleições – exatamente o contrário do que está esperando colher. “Se continuar assim, pode ser que aconteça mesmo”, disse o prelado, bem no aceso dos debates supérfluos em que se embrenhou o Planalto, depois que um jornal norte-americano resolveu analisar os “hábitos sociais” do presidente Lula e seu relacionamento com… as garrafas.

Ao contrário dos escandalizados assessores do Planalto, dom Agnelo não está nem aí para um gole a mais ou um gole a menos. Sua preocupação tem outro enfoque. Ele reflete sobre os rumos da política econômica, que não resolveram o problema do desemprego e da renda da população mais pobre. Questiona se foi justa ou não a edição de um salário mínimo cujo valor ficou condicionado aos efeitos negativos da política de altos superávits para pagamento da dívida externa. “Isso não é reajuste – asseverou. Não chegou nem a corrigir inteiramente a inflação.” Lula disse que foi maior que a inflação.

Refletindo o pensamento da Igreja, freqüentemente levado às tribunas das missas dominicais de todo o País, o prelado deixou claro que preferia ver o governo de Lula premiando, em vez do dinheiro e do capital, o trabalho humano, o desemprego e o salário baixo. Afinal, são eles que pagam todas as dívidas, não os bancos. Pediu aos brasileiros que “abram os olhos nas eleições: a hora é de escolher bem, não só os prefeitos, como os vereadores”. Dom Agnelo que tenha paciência: as eleições vão ainda demorar um pouco.

Por ora temos, de fato e como o cardeal-arcebispo, outras preocupações. E nossas preocupações transcendem odores etílicos ou futricas embriagadas pela queda contínua do ibope presidencial. Estão, por exemplo, na “greve inaceitável” (o termo é do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, ainda curtindo desdobramentos do Waldogate) dos servidores públicos, que complicam a vida do INSS (e de milhões de segurados) desde o final do ano passado. A “marvada pinga” que polarizou as atenções palacianas nesses dias de ira contra um pequeno artigo publicado alhures nada tem a ver com as invasões dos sem-terra, que romperam a barreira temporal do “abril vermelho” para já avançar sobre a sede do Incra em Brasília, ocupada por desocupados sem a mínima reação dos poderes públicos.

Nossas preocupações se espraiam para um horizonte cada vez mais turbado, em contraposição àquele das róseas e fáceis promessas que até pouco tempo pontilhavam todos os discursos presidenciais. Ninguém mais ouve falar, como antes se ouvia, no espetáculo do crescimento, na geração de empregos, na melhoria das condições de vida dos brasileiros. O dólar dispara, as bolsas caem e, mesmo que de forma camuflada, canhões, metralhadoras e tropas estão de volta às ruas do Rio de Janeiro, ante a indisfarçável falência do Estado na sua obrigação constitucional de garantir segurança e combate ao crime.

Aos índios, depois de vestir um cocar, Lula garantiu, segunda-feira que passou, que no decorrer de seu mandato vai cumprir todas as promessas de campanha. Mais de um terço do mandato já passou. O vice-presidente José Alencar, que até aqui criticou apenas a política econômica (melhor, os altos juros), já deita falação em outros setores. Ataca a política de reforma agrária, dizendo que a falta de um projeto “avançado nesta área polêmica” é uma das causas dos conflitos no campo. Ora, se o vice-presidente acha isso, e afirma que a crise social pela qual passa o País é a maior crise de toda nossa história, nós aqui na planície é que não vamos discordar. Resta saber, entretanto, o que pode acontecer se Lula não mudar – como se dizia antes – tudo isso que aí está.