O movimento de saques em dinheiro vivo efetuados pelas agências de publicidade
SMPB e DNA, do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, foi 3,5 vezes maior
nas datas próximas à aprovação pelo Congresso de projetos do interesse do
governo. De acordo com os dados do Conselho de Controle de Atividades
Financeiras (Coaf), as duas empresas sacaram R$ 21,014 milhões (R$ 20,9 milhões
apenas no Banco Rural) em espécie nos últimos dois anos, uma média de R$ 30 mil
por dia. Nos períodos de votação das reformas tributária e previdenciária, entre
outros projetos e medidas provisórias importantes para o Palácio do Planalto, a
média diária sobe para R$ 106 mil.

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A fase de maior saques ocorreu entre
setembro e novembro de 2003, quando nada menos do que R$ 9,1 milhões (R$ 300 mil
por dia) foram tirados das contas do publicitário mineiro, suspeito de ser o
"homem da mala" que alimentava o "mensalão" no Congresso. Além de ter sido
marcada pela votação das reformas, essa época também foi caracterizada por uma
grande quantidade de troca de legendas por parte dos deputados.

Munido de
uma tabela cruzando os números do Coaf com as datas de votação mais importantes
do Congresso, o líder do PFL no Senado, José Agripino (RN), apontou ontem a
"coincidência" e disse que a mesma é um forte indício de como funcionava o
"mensalão".

"Temos aqui pistas preciosas para a CPI aprofundar", afirmou
o pefelista. Segundo ele, os valores eram sacados dois dias antes ou dois dias
depois da aprovação das matérias. "Que partido político foi campeão de
fidelidade ao governo?", questionou o líder, acrescentando que a resposta vai
mostrar quem eram os destinatários do "mensalão".

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A votação em segundo
turno da reforma tributária na Câmara, por exemplo, dia 24 de setembro de 2003,
coincide com uma sequência de três saques, nos dias 23, 25 e 26, totalizando R$
1 21 milhão. Agripino chamou a atenção para o fato de os saques ocorrerem quase
que simultaneamente às votações. Nos meses seguintes, mesmo sem votação, os
saques continuaram altos e em dezembro, depois que a reforma tributária foi
aprovada pelo Senado, houve novo pico de retiradas. Só em janeiro, foram sacados
mais R$ 2,8 milhões das contas da SMPB e DNA.

Em fevereiro de 2004, o
volume caiu drasticamente, mas em março voltou a subir para R$ 1 milhão. Na
época, o governo se viu envolvido com o escândalo envolvendo o ex-assessor da
Casa Civil Waldomiro Diniz e precisou apoio do Congresso para aprovar a MP que
fechava os bingos.

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Outra "coincidência" se deu na vitória do governo na
votação do salário mínimo de R$ 260 pelos deputados, no ano passado. O valor de
R$ 275 modificado pelos senadores, foi derrubado na Câmara em duas votações. A
votação em primeiro turno, dia 2 de junho, foi paralela ao saque no Banco Rural
de R$ 500 mil. O valor caiu para R$ 200 mil na segunda votação.

A medida
provisória que deu status de ministro ao presidente do Banco Central, Henrique
Meirelles, tem sua trajetória igualmente acompanhada de saques no Rural. O
Planalto comemorou mais a vitória na Câmara dia 1º de dezembro do ano passado,
dois dias depois de terem sido sacados R$ 480 mil no Banco Rural.

De
qualquer forma, a média de saques em 2004 foi bem menor do que em 2003, quando o
governo começou a articular sua base aliada. Em 2005, apenas uma pequena soma de
R$ 497,9 mil foi retirada em dinheiro das contas do publicitário.