São Pedro não espera

Enquanto na roça, a virada da lua, fatal para o início do plantio da próxima safra de soja, coloca agricultores e máquinas de prontidão, na roça política do Senado Federal os “lavradores” de idéias não foram trabalhar. Simplesmente faltou quórum e foi adiada para o próximo dia 5 a votação do Projeto de Lei de Biossegurança – que se pretende seja a carta magna dos que atuam no campo e na pesquisa. Mas a primeira roça avisa que, por motivos óbvios, não poderá esperar pela segunda. Preguiçosa e indolente, esta arroga-se no poder de liberar o tipo de semente a ser usada na terra já em tempo de cio, mas depende ainda do pronunciamento da Câmara dos Deputados, onde ninguém se entende. Coisa que vem do ano passado e, pelo visto, pode até ficar para o ano que vem.

No lavrado do Executivo, também sem muita prática em matéria de, a urgência sempre invocada para outras medidas provisórias (nem sempre urgentes), curiosamente não socorre esse tema. O presidente Lula mandou avisar que não editará medida. Ele tem suas razões. Os agricultores, idem. Que cada um faça, então, o que lhe der na telha.

Se nem o Executivo nem o Legislativo têm consciência dos ciclos inexoráveis da natureza, que não venha agora o Judiciário, sempre cheio de razão, meter bedelho onde nem São Pedro manda. Colonos avisam que só têm semente de soja transgênica no paiol, lavraram a terra, está na hora da semeadura e vão plantá-la com ou sem autorização. Se em Brasília não se pega na enxada, na roça de verdade trabalha-se de sol a sol. Repete-se assim com quase todos os argumentos o debate atropelado do ano passado, quando deixaram ao vice-presidente José Alencar o pepino da medida provisória editada com ambigüidades, corrigida e reeditada.

Está certo que o tema é polêmico. E o texto do projeto de lei em apreço não diz respeito apenas à transgenia. Mas todos sabiam, já desde o ano passado, que chegaria a hora de outra semeadura e o País não poderia ficar refém da falta de tempo (ou de vontade, como é mais adequado ao caso) dos senhores deputados e senadores. “Vamos plantar – dizem os agricultores gaúchos cheios de calos – a oitava safra de soja transgênica e estamos nos submetendo (além do inútil alongamento do debate) à vergonha de não termos sementes produzidas aqui.”

De fato, o Brasil está perdendo tempo com detalhes e caprichos e indefinições. Inclusive aqueles que dizem respeito à exportação do produto, via Porto de Paranaguá ou qualquer outro porto. Se se pode plantar, não se pode colher? E se colher, não se pode vender, exportar?

Tudo quanto a ciência apurou até aqui é que a transgenia, pelo menos na área agrícola, não é esse bicho-papão de sete cabeças propalado por ambientalistas sempre de plantão a serviço sabe-se lá de quem. Uma questão que é, portanto, preponderantemente econômica, não poderia deixar os políticos, incluindo o presidente da República, reféns de ideologias pouco claras. Deveriam se espelhar no que diz o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, quando avisa que sua obrigação é defender a posição dos agricultores. Nenhuma outra.

Além de deixar agricultores preocupados (afinal, não podem ficar sem plantar, mas se plantam, podem depois ser castigados!), a pouca pressa do nosso parlamento está frustrando também a comunidade científica que acompanha os debates sobre clonagem terapêutica, uso de embriões e de células-tronco. Concordar ou discordar de pontos polêmicos, que mexem com a vida e, inclusive, com conceitos de fundo religioso, é natural e é para isso que nossos representantes lá no Congresso são muito bem remunerados. O que não dá para entender é quando eles se ausentam do trabalho, negando quórum e frustrando o prosseguimento dos debates. É como se os agricultores todos ficassem em casa dormindo, ou aguardando a próxima temporada, ano que vem. Quem lhes pagaria as contas de máquinas, insumos, peões e tudo o mais?

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