A demissão, anunciada na noite passada, do diretor de Política Econômica do Banco Central, Afonso Bevilaqua, e sua substituição pelo diretor de Estudos Especiais, Mário Mesquita, havia sido amplamente antecipada e não atrapalhou o sono dos analistas de instituições estrangeiras. Embora lamentem a saída de Bevilaqua, considerado o principal arquiteto da estratégia monetária do BC nos últimos anos, eles avaliam que ela não será alterada nos próximos meses. A tese de que Bevilaqua teria sido "derrubado" pela ala desenvolvimentista do governo, integrada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, não colou, pois há muito tempo era sabido que o diretor do BC queria sair do posto.
O ex-diretor de assuntos internacionais do BC, e atualmente economista-chefe para a América Latina do ABN AMRO, Alexandre Schwartsman, enviou aos clientes do banco um relatório com um formato de carta aberta endereçada a Bevilaqua que, segundo ele, "ajudou a reescrever o manual sobre meta inflacionária" no Brasil. "Para mim, confesso, é um pouco mais difícil do que o normal escrever essas linhas", disse Schwartsman. "Pessoalmente, estou feliz por meu amigo que finalmente vai aproveitar com sua família (eu conheço muito bem os custos do cargo, o quanto ele seja gratificante), mas tenho uma obrigação profissional, que é a de assumir menos uma perspectiva pessoal e analisar os possíveis impactos da mudança no BC. Mas, nessa frente, não vejo muito para se preocupar.
Segundo ele, a substituição de Bevilaqua por Mesquita é uma coisa natural. "Não espero que a mudança de nomes implique em qualquer alteração na política", disse. Além disso, observou o economista, "o BC não depende crucialmente de uma pessoa, o quanto significativa essa pessoa seja". Ele observou que "instituições são mais importantes que indivíduos, e isso é absolutamente verdadeiro" em relação ao BC brasileiro. "Por isso não estamos alterando nossa visão sobre a condução da política monetária", disse. "Ainda prevemos um corte de 25 pontos-base na próxima reunião do Copom, e ainda consideramos muito improvável uma mudança no ritmo dos cortes.
Nuno Camara, economista sênior do Dresdner Kleinwort, disse que a saída não surpreendeu os mercados. "Após gastar três anos e meio no BC e após conquistar um desempenho excelente nessa instituição, estava claro que ele procuraria por novos desafios em outros lugares", disse Câmara. "Sua saída foi motivada por razões pessoais e não irá, de maneira alguma, resultar em qualquer mudança no futuro da política monetária." Câmara manteve sua aposta de um corte 25 pb na Selic na próxima reunião do Copom e sua previsão de que a taxa fechará 2007 em 11,25%.
Michael Hood, estrategista do Barclays Capital, disse que a saída de Bevilaqua poderá aliviar as críticas ao BC. "Mas me parece improvável ela que vá afetar significativamente a conduta de médio prazo da política monetária", afirmou o analist.
No entanto, o Hood observou que as taxas de juros domésticas "poderão reagir favoravelmente à notícia, com base na teoria que a saída de Bevilaqua torna o Copom ligeiramente menos conservador".