Conviver com a dura faceta do avanço da criminalidade, e com os métodos sofisticados postos em prática pelas grandes corporações formadas com o exclusivo objetivo de fraudar a lei e obter ganhos astronômicos no tráfico mundial de drogas, a mais rendosa atividade do chamado crime organizado, não é uma experiência restrita ao Brasil.

Outros países mais adiantados e ricos também pagaram, ou continuam pagando, o pesado quinhão exigido pela gradativa desconstrução das relações humanas e sociais, que acabou propiciando a proliferação de hábitos comprovadamente nocivos à convivência harmônica dos semelhantes.

Tanto nos Estados Unidos e no Canadá, as nações mais ricas do continente americano, quanto nos evoluídos países da Europa Ocidental, a expansão do crime através de redes concebidas para operar como empresas baseadas em planejamento estratégico chamou a atenção de pesquisadores da problemática social e dos próprios governos, que uniram esforços no sentido de extirpar ou, ao menos, atenuar a ameaça gigantesca.

O governo norte-americano, para ficar apenas com o exemplo do país que tem hoje encerrados em prisões 738 habitantes em cada grupo de 100 mil, teve de gastar rios de dinheiro para diminuir as taxas de crimes por armas de fogo, abortos clandestinos, estupros e tráfico de drogas, entre outras modalidades. O governo investiu na melhoria da qualidade de vida dos mais pobres dentre a população, facilitando o acesso de crianças e adolescentes à educação, esporte e cultura, além de implantar programas de combate à prática de violência por parte dos chefes de família.

O cenário brasileiro não deixa de despertar a preocupação de muitos centros de investigação social e econômica, na elaboração de um diagnóstico capaz de orientar as soluções que, infelizmente, tardam a chegar. Instituição do porte da Fundação Getúlio Vargas houve por bem mobilizar parte de sua massa crítica para trabalhar sobre o terreno minado da criminalidade, tendo em vista os patamares assustadores da atualidade.

A prestigiosa instituição, ao fazer um cotejo entre os Estados Unidos e o Brasil, adverte na revista Conjuntura Econômica que a diminuição da onda de crimes em nosso País não será possível – a curto e médio prazo – ?a não ser que haja uma revolução nas políticas públicas relativas às questões prisionais, à natalidade e, principalmente, à educação?.

Em outras palavras, isto quer dizer que o Brasil ainda não gasta o suficiente no sistema educacional, mesmo com as recorrentes promessas de candidatos à Presidência da República, governos estaduais e prefeituras de grandes municípios. Segundo o Unicef, a média nacional de tempo de escola, na faixa etária de 15 anos ou mais, é de 4,88 anos, contra 8,83 na Argentina, 7,55 no Chile, 7,23 no México, 6,18 no Paraguai e 5,58 na Bolívia.

Não deixa de ser sintomático que o senador Cristovam Buarque, voz solitária a pregar na campanha presidencial a revolução pela educação, já apelidado de autor do samba de uma nota só, tem apenas 1% das intenções de voto de seus compatriotas.