A crônica conta que num banquete com muita carne, peixes tambaqui e tucunaré, mais cerveja, vinho, cachaça e uísque (tudo para comemorar a aprovação das reformas), o presidente Lula segredou a companheiros petistas, na Granja do Torto, que “é duro ser governo”. E, entre as emoções provocadas pela antiga toada Chico Mineiro, numa improvisada roda de viola, já madrugada, admitiu que achava que fazer mudanças no Brasil seria muito mais fácil e bem mais rápido. Paciência. Cada governo tem as reformas que merece. Com pelo menos mais três anos pela frente, outras dificuldades vão surgir e, mais adiante, o presidente Lula terá chance de rever outros conceitos.

Poderá descobrir, por exemplo, logo na virada do ano, que as reformas da Previdência e tributária em comemoração foram apenas pálidas maquiagens, tangidas por acordos natalinos de todos os calibres. Pelo menos para o contribuinte, a segunda não passou de aumento descarado da carga tributária, operada com a ajuda de medida provisória, enquanto a primeira corre o risco de despencar pela ladeira da convocação extraordinária do Congresso, já motivo de desentendimento público entre o Senado e a Câmara dos Deputados. Por essas e por outras, com tantos interesses em jogo e pouca prática no comando, é mesmo duro ser governo.

O presidente Lula certamente nunca iria esperar crítica tão direta e sincera vinda do presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha. “Não sei se o Palácio já convocou, mas se convocou está errado. Discordo do presidente Lula”, disse o deputado diante das câmaras e microfones, ao saber que nos conchavos entre Senado e Executivo decidiu-se pela convocação extraordinária do Congresso a partir de 20 de janeiro. Em regime de hora extra, e de acordo com tais conchavos defendidos pelo líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante, os parlamentares teriam que retomar à apreciação da reforma da Previdência, menos de mês após sua promulgação, na forma de emenda paralela.

Para João Paulo, a reforma já foi concluída e não há motivo para a convocação. Portanto, também é desperdício pagar salários a mais para os parlamentares. Pior, sem perspectiva de produção positiva para os altos interesses da nação. Isso – disse – é um “desserviço ao País”, e “um escândalo” que custará aos cofres públicos uns cinqüenta milhões de reais, já que colocaria nos já gordos contracheques dos parlamentares cinco salários de R$ 12.720 no período de apenas dois meses.

A briga pode ter outros endereços. O próprio ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu (também contrário à convocação), desconfia que existem “outros interesses” atrás dela. E é bem provável que não contaram ao presidente da Câmara toda a história, daí sua reação inusitada. Ou, como observaram outros, seu “comportamento heterodoxo”. Mas líderes de outros partidos admitem que houve um acordo que agora terá que ser cumprido sob pena de descarada traição. “Se o acordo para votar rapidamente a emenda paralela não for cumprido, o governo acabou no Senado”, sentenciou o líder do PSDB na Casa, Arthur Virgílio Neto.

Para apagar o fogo chamaram o calejado bombeiro José Sarney, presidente do Senado: O presidente da Câmara – disse ele – é um homem de espírito público. Nunca houve sintonia tão grande entre as duas Casas. Nesse fim de legislatura, de tanto trabalhar, estamos todos cansados para fazer julgamentos apressados.

Tão cansados que, um dia após a festa na Granja do Torto, também o presidente Lula “heterodoxou” seu comportamento. Sem falsa modéstia, assegurou que ele e sua equipe têm trabalhado “como jamais se trabalhou nesta República, nem na República Velha, nem na República Nova”. Outra promessa: “Na futura vai se trabalhar ainda mais”. Com tanta esperança em jogo, está criada, pois, a República Futura. Onde todos cansam, mas não recusam hora extra.