São Paulo (AE) – Depois do controvertido prêmio à austríaca Elfried Jelinek no ano passado, escolha polêmica que levou um de seus membros a deixar a entidade, a Academia Sueca voltou a surpreender hoje (13) ao anunciar que o Prêmio Nobel de Literatura da temporada foi destinado ao escritor, roteirista, dramaturgo e ator bissexto inglês Harold Pinter, de 75 anos. A justificativa, como de hábito, consumiu poucas linhas: "Pela sua obra, descobre-se o precipício que há por trás do balbuciar cotidiano. Seus textos entram nos espaços fechados da opressão."

O prêmio, de 1,1 milhão de euros, será entregue na Suécia em 10 de dezembro, aniversário da morte de seu fundador, Alfred Nobel. A escolha revelou um caráter eminentemente político da academia sueca. Um dos mais destacados representantes da chamada geração Angry Young Men (Jovens Irados), na qual se enquadravam também John Osborne e Arnold Wesker, Pinter produz uma obra marcada pela preocupação com a relação de poder entre o verdugo e a vítima, o torturador e o torturado, o senhor e seu escravo.

Na verdade, tal orientação não se limitava aos seus escritos. Nos últimos anos, depois de anunciar que se dedicaria mais à poesia que ao teatro, Pinter concentrou suas críticas na política externa britânica, especialmente a partir do momento em que o governo de Tony Blair alinhou-se ao de George W. Bush no conflito contra o Iraque. Pinter chegou a escrever que Blair era um "criminoso de guerra" e que os Estados Unidos são um país "dirigido por um bando de delinqüentes, seguidores de nazi-fascitas".

Assim, com a escolha, a academia sueca voltou a tomar uma medida heterodoxa, pois, a despeito do indiscutível valor de sua obra, Pinter é mais um homem de teatro que um escritor no sentido tradicional da palavra. Ele também não figurava na lista dos prováveis vencedores e sua indicação provocou idêntica surpresa à de 1997, quando o premiado foi outro dramaturgo, o italiano Dario Fo, que, ao receber a notícia, achou que era uma brincadeira.