Já estamos vivendo o ano 2006. Também já sou bisavó. Meus netos nem meus bisnetos alcançaram ouvir o ?clak-clak? do vendedor de barquilha… (A barquilha é uma massa doce, assada em forma de funil!) Não sei a procedência da receita e nem do nome… Mas lembro que o vendedor passava pelas ruas batendo, ?clak-clak?, avisando da sua presença! Havia o tocador de realejo, (motivo até de valsinhas).

Ele passava com sua caixinha de musica movida a manivela e um periquito que fora ensinado a escolher entre muitos bilhetinhos ?a sorte? da pessoa interessada… Também víamos o consertador de guarda-chuvas que oferecia seus serviços, de porta em porta… Os vendedores de bilhetes de loterias, chegavam a colocar no bolso do cliente, já bastante conhecido, alguma fração de bilhete ou, até um bilhete inteiro, para que ele pagasse ?outro dia?… Isto, caso a alegação fosse a falta do dinheiro no momento!

 Assim era Curitiba, quando todas as gentes se conheciam…

Muitos ciganos passavam vendendo tachos e panelas de cobre! (soube muitos anos depois, que o chefe dos ciganos morava aqui mesmo!)

Vi muitas vezes o soldador de panelas, sentado na soleira de alguma porta, soldando panelas de cobre furadas!

Ah! e o Adolfo? Aquele polaco de cara avermelhada, cabelo muito louro, que andava pelas ruas da cidade com um caixotinho de madeira, cheio de pedaços de vidros preso às costas por uma correia de couro… Era um vidraceiro. Meu pai, penalizado com a sua solidão, ofereceu-lhe um trabalho na agência lotérica, desde que cuidasse da aparência. Não deu certo, e Adolfo voltou às ruas. Muitos, muitos anos se passaram, e um dia nos encontramos na rua:

Meu coração confrangeu-se… Ah! meu amigo de infância: ele caminhava com dificuldade, a vida fez dele um velho triste, ele que sempre fora risonho e gostava de crianças!

 De repente lembrei das histórias de Scheerazade. As famosas histórias das Mil e uma noites. É, a Pérsia já não existe, em seu lugar está outro pais, chamado Irã.

Também nos deliciávamos com as aventuras do Pedrinho no Sítio do Pica-pau-amarelo…. Histórias do Jeca Tatu, Saci Pererê… Os filmes e livros de aventuras! Nossa! Búfalo Bill! Ouvíamos histórias do ?Pedro Malasarte?, um moleque muito arteiro!

As crianças de hoje não lêem mais as histórias que Monteiro Lobato escreveu. É, a TV Globo transmite à maneira dela, algumas daquelas histórias… Mas nossas crianças nunca mais escutaram contar sobre aquelas histórias das ?Mil e uma noites?… Das 20 mil léguas submarinas, Viagem à lua… ou leram sobre Tarzan, Os três mosqueteiros…. Verdade que ainda certas escolas procuram incentivar os alunos á lerem livros de contos infantis. Pesquisando na Biblioteca Pública de Curitiba, tive a confirmação de que nossas crianças e adolescentes só procuram Harry Potter!

Alguém se lembra do bife à cavalo? Era aquele bife, com um ovo frito por cima (com as bordas da clara tinindo de torradas). E fazíamos questão de que a gema ficasse macia, para molhar o miolo do pão… E o pãozinho dágua, redondinho, dividido ao meio?

Você lembra da sessão ??pão duro?? Era quando no cinema passavam dois filmes pelo preço de um… Era cansativo, mas valia a pena… E as recordações vão chegando: algumas felizes, outras tristes, como quando eu soube, que o pintor Miguel Bakun se suicidara, após vencer um concurso e ser ?premiado? com uma caixa de lápis de cor… pelos seus colegas! Isto me foi relatado pelo Franco Giglio, (um jovem italiano aqui radicado e também artista plástico), muito triste e inconformado com a atitude dos ?colegas?.

Estávamos no ano de 1963. Dia 14 de fevereiro.

Um dia, o Franco regressou à Itália e, lá, no seu estúdio, morreu de um ataque fulminante do coração. Hoje, ele é lembrado e homenageado com um museu que leva o seu nome, aqui em Curitiba.

Margarita Wasserman – Escritora e membro do Instituto Histórico e geográfo do Paraná