O relatório paralelo do PT apresentado hoje à CPI dos Correios descaracteriza o texto do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) e poupa estrelas petistas, como os ex-ministros José Dirceu e Luiz Gushiken e o ex-presidente do partido José Genoino, de envolvimento no escândalo do mensalão. Com cerca de mil páginas, a proposta do PT afirma que o mensalão não existiu, que o esquema de Marcos Valério Fernandes de Souza começou em 1998, no governo do tucano Eduardo Azeredo em Minas Gerais, e que não há provas de que o Banco do Brasil, através da Visanet, foi uma das fontes dos recursos que abasteceram o valerioduto. O relatório petista sugere ainda o indiciamento do banqueiro Daniel Dantas em cinco tipos de crime.

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"O relatório não apresenta provas que indiquem a existência do mensalão. Utilizou-se o relator de ilações, estranhezas, suspeitas para chegar a conclusões sem base nos fatos. Não houve pagamentos para obter aprovação de projetos de interesse do governo, mas o repasse ilegal para partidos", diz o relatório do PT. "Não se está aqui defendendo a legalidade do caixa 2. Trata-se de prática que deve ser condenada, e por tal razão que defendemos a maior transparência das contas de campanha, e limitação dos gastos. Mas afirmar que o caixa 2 seria o fantasioso "mensalão", sem quaisquer provas para tanto, compromete o esforço da CPMI de aperfeiçoamento das estruturas políticas e da vida pública, e transforma a CPMI em manobra eleitoreira e demagógica", afirma o relatório petista.

Para conquistar votos de parlamentares aliados contra a proposta de Serraglio, o PT retirou a Prece, fundo de pensão da Companhia de Abastecimento de Água e Esgoto do Rio de Janeiro (Cedae), de seu relatório paralelo. Com esta fórmula, o governo garantiu o voto do deputado Carlos Willian (PSC-MG), que é ligado ao ex-governador Anthony Garotinho, a favor de seu relatório e contra Serraglio. "Recomendamos que toda e qualquer análise e avaliação sobre os procedimentos adotados pela Prece devem ser tomados nas instâncias estaduais adequadas", sintetiza o relatório petista, no capítulo que trata da Prece. Os petistas também retiraram de sua proposta os pedidos de indiciamento de peemedebistas envolvidos em irregularidades nos Correios.

Enquanto o relatório de Serraglio afirmava que o valerioduto começou no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o PT, o relatório paralelo do partido afirma que o esquema teve início em 1998. Diz ainda que Marcos Valério seduziu o PT. "Ocorreu um reprovável caixa 2, com repasse ilegal para partidos, desde 1998, iniciado em Minas Gerais, durante a campanha de Eduardo Azeredo, do PSDB, e continuando posteriormente com repasses a Delúbio Soares, por meio de valores transferidos por Marcos Valério e suas empresas", afirma o relatório paralelo. "O empresário angariava recursos no setor público e privado e os repassava, por meio de suas agências de publicidade, às pessoas indicadas por Delúbio Soares. Havia o publicitário seduzido o PT com um mecanismo para arrecadar fundos, cuja gênese – como comprovou as investigações – se deu nas campanhas políticas desde 1997, mas se explicita com todas as suas características na campanha eleitoral de 1998 para o Governo do Estado de Minas Gerais, na qual saiu derrotado o hoje senador Eduardo Azeredo".

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No relatório paralelo, o PT também poupou do pedido de indiciamento o lobista Nilton Monteiro, apontado por ter divulgado uma lista com o nome de 156 políticos que teriam recebido dinheiro de caixa dois de Furnas. "Vale ressaltar que não é a primeira lista que o Sr. Nilton Monteiro fez chegar a público e, como exposto em capítulo próprio, denúncias anteriores correspondiam a verdade dos fatos. Em sede da Comissão Parlamentar não foi possível avançar nas investigações, mas recomenda-se ao Ministério Público que prossiga a pesquisa sobre eventual delito a ser apurado sobre o episódio", diz o relatório petista.

Os petistas pedem o indiciamento do banqueiro Daniel Dantas, de seus sócios e da ex-presidente da Brasil Telecom Carla Cicco por cinco tipos de crime: tráfico de influência, corrupção ativa, supressão de documento, crime contra a ordem tributária e lavagem de dinheiro. É feita ainda uma relação entre o "esquema Opportunity e o valeridouto", pela qual Dantas teria repassado R$ 150 mil para Marcos Valério através da Brasil Telecom, da Telemig e da Amazônia Celular. No relatório paralelo o PT também sugere o indiciamento do jornalista Leonardo Attuch por "tráfico de influência" e "corrupção ativa".

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Os petistas não mexeram no texto de Serraglio quando ele relata que o presidente Lula foi avisado do mensalão pelo ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Também pouparam do pedido de indiciamento os 18 parlamentares que receberam recursos de Valério e estão sendo julgados pelo Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara. Mas aproveitaram para incluir nessa lista o nome de Custódio de Mattos (PSDB-MG), que teria recebido dinheiro do esquema de Valério em 1998.