Após um princípio de tumulto dentro da Casa de Custódia de Curitiba (CCC) na tarde desta segunda-feira (2), seguido de gritaria e apreensão dos familiares e mulheres dos detentos, a rebelião na unidade prisional localizada na Cidade Industrial de Curitiba – iniciada às 18h deste domingo (1º) e que já dura mais de 24 horas – teve suas negociações suspensas no fim desta tarde.

O Departamento Penitenciário do Paraná (Depen) informou que as negociações com os 172 presos que seguem rebelados em umas das quatro galerias da prisão foram interrompidas e serão retomadas nesta terça-feira (3). Ainda segundo o Depen, não há informações sobre presos e agentes penitenciários feridos. Cinco agentes foram feitos reféns ainda no começo da rebelião, sendo que um deles foi liberado pelos detentos com ferimentos leves na noite de domingo.

De acordo com as autoridades, o motim que após uma intervenção do SOE (Seção de Operações Especiais) se limitou a apenas uma galeria da CCC, conta com a ação de negociadores do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), unidade de elite da Polícia Militar, que mantém contato permanente com os presos.

Perto do fim?

No início da tarde desta segunda-feira, em entrevista à imprensa, o capitão da Polícia Militar Márcio Roberto da Silveira chegou a afirmar que a rebelião se aproximava do fim. Segundo ele, as exigências dos presos teriam sido ouvidas e aceitas, mas ainda não atendidas.

“A situação está caminhando para o fim de maneira pacífica, as reivindicações dos amotinados foram analisadas e na medida do possível, serão contempladas, mas não de maneira imediata. Mas assim que possível, todas as manifestações e exigências serão contempladas . Eles pediram transferência de alguns presos do interior que seriam membros da ‘Mafia Parananense’, uma facção criminosa, porque estes presos estariam sofrendo ameaças no interior do estado e na visão dos amotinados, na Casa de Custodia de Curitiba, os presos estariam mais seguros”, disse.

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Segundo o capitão, a transferência de sete presos da facção “Mafia Paranaense”, de prisões controladas pela organização criminosa paulista PCC (Primeiro Comando da Capital) – para a Casa de Custódia é a mais importante revindicação dos rebelados.

Outros motivos da revolta dos presos seriam os problemas vividos por eles e seus familiares na unidade. As principais reclamações estão relacionadas com o desrespeito e abusos enfrentados pelos parentes dos detentos durante as visitas, vetos na entrada de alimentos trazidos por mães e esposas, além da alimentação de má qualidade que seria oferecida aos presidiários.

O que falta pro acordo?

De acordo com o presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Paraná (Sindarspen) Ricardo de Carvalho Miranda, dos seis agentes da Casa de Custódia, quatro permanecem reféns no fim da tarde desta segunda, um foi liberado e outro se escondeu dos detentos. Mas nenhum deles ficou ferido. “Um agente sofreu uma queda, ele tem problema na coluna e foi liberado pelos presos, porque sentia muita dor. Os reféns estão abatidos psicologicamente mas, não sofreram nenhuma agressão”, explicou.

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Sobre uma possível invasão policial, Ricardo afirma que representantes dos Direitos Humanos da OAB e advogados dos presos acompanham o caso na CCC, para evitar agressões aos rebelados. “Houve um principio de confusão nesta tarde, mas nada que gerasse algum transtorno. Dentro de um processo de retomada da penitenciária, o grupo de intervenção vai entrar. Os presos ficaram com medo, mas em nenhum momento houve exagero por parte da Polícia Militar”, completou.

Para Ricardo, falta acalmar os ânimos para que a rebelião se encerre. ” O juiz já despachou autorizando que os presos do interior do Estado venham para cá. Esses presos eram daqui, foram enviados para o interior, por causa de uma confusão. Aqui há presos que cometeram crimes de abuso sexual e contra a mulher, e presos excluídos de outras organizações criminosas do Estado. E esta é a única penitenciaria onde há convívio para eles. Houve uma briga interna, eles foram transferidos e agora os presos pedem que eles voltem pra cá”, disse Miranda.

Direitos Humanos

O presidente da comissão de direitos humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Paraná, Alexandre Salomão, confirmou que não houve quadro de violência até às 18h desta segunda e que algumas reivindicações serão atendidas, mas outras não. Além disso, a comissão deve acompanhar toda a movimentação dentro da CCC e qualquer novidade.

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“Não temos nenhum quadro de violência e estamos em negociação. O que foi colocado desde o inicio é que nos participaríamos da entrada da polícia dentro da unidade, quando ela fosse entregue e que acompanharíamos ‘in locu’ a entrada dos agentes penitenciários e revistas nas galerias. Um comprometimento que OAB teve desde o primeiro momento. Negociação dentro da normalidade e temos algumas reivindicações que podem ser atendidas, outras não”, enfatizou.

De acordo com as autoridades, as negociações devem ser retomadas nesta terça-feira, no início da manhã.

Confira as entrevistas gravadas em frente à Casa de Custódia de Curitiba: