Pobre é quem não consegue comprar o suficiente para comer, dizem os doutrinadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea. Pode não comprar, mas ter comida no quintal e na roça. Aí não seria mais pobre? Mas de que comida estamos falando? Um pobre rural e outro urbano são pobres no mesmo nível? Que diferença existe entre um pobre do Nordeste e outro pobre do Sul brasileiro? Afinal, quem é pobre no Brasil e quantos são os nossos pobres merecedores da intervenção e ação públicas?

A pergunta atribula não apenas o ministro extraordinário de Segurança Alimentar, que tem o sugestivo apelido de “Mesa”, conduzido por José Graziano, que não se cansa de pedir desculpas por ter mexido com o problema da imigração interna brasileira. Mas incomoda a todo o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, empenhado desde a primeira hora no combate à fome de toda a pobreza nacional. Para respondê-la, uma portaria do próprio ministério encarregado de zerar a fome fixou o prazo de 150 dias, prorrogáveis por mais 30 se for necessário. Daqui cinco meses, portanto – no máximo seis – técnicos do governo vão, enfim, respirar aliviados quando derem a equação por resolvida.

A pergunta é simples. Mas a resposta não é fácil tanto quanto parece, concordam os exegetas da questão social brasileira. Cada país mede sua pobreza como convém, e sobre isso nem mesmo os organismos internacionais se entendem. O Brasil quer criar um conceito seu, o mais completo e sincero possível. Aliás, precisa criar para fazer funcionar o principal programa do governo, ainda bloqueado por mil dúvidas e conflitos – um carro colocado à frente da boiada por um erro de estratégia.

Quando Lula assumiu, citou os números dos comensais convidados ao grande banquete das três refeições diárias até o final de seu governo. Seriam 50 milhões os famintos. O Ipea os calcula em 56,9 milhões, que chama de indigentes. Para o ministério de Graziano, entretanto, esse número é levemente inferior: 46 milhões. Dez milhões a menos não é pouco e pode fazer a diferença na hora de servir a mesa.

Seguindo vocação inata para o debate, os integrantes do governo de Lula não vão decidir a parada sozinhos. Já programaram seminários e conferências, incluindo audiências públicas, abertas a todos os segmentos e pesquisadores interessados, locais, nacionais e internacionais. O primeiro desses encontros – não se sabe ainda onde – estaria marcado para logo após a Páscoa. Mas os mesmos agentes do governo avisam: toda definição terá, até certo ponto, um caráter arbitrário, com fortes implicações políticas, já que definem o número de beneficiários em potencial dos programas sociais.

Como se vê, muita saliva será gasta na busca dessa linha oficial que divide os pobres dos não pobres de norte a sul. Mas já será um grande alívio – pelo menos para os não-pobres – saber exatamente quem é merecedor da generosa ajuda que vai sendo amealhada em todos os cantos do País para o Fome Zero – por enquanto uma idéia que distribui migalhas a bolsões aleatoriamente escolhidos dentro de uma nação travada por altíssimos juros e patrocinadora de um salário mínimo simplesmente ridículo.