Não é a primeira vez desde que o governo percebeu que andava mal: o presidente Lula se reúne com assessores e ministros e, ali na frente de todos, tem o hábito de puxar orelhas de “companheiros” que integram a sua equipe de trabalho. No sentido figurado, é claro. A última vez que aconteceu foi quarta-feira passada, bem no aceso da crise gerada pela malsinada tentativa de expulsão do jornalista norte-americano Larry Rother, que acertou no fígado do presidente com sua análise político-comportamental publicada no jornal The New York Times. Diante de integrantes do Consea – Conselho Nacional de Segurança Alimentar, Lula passou uma reprimenda em todos quantos não compareceram. E queixou-se que suas ordens não estavam sendo cumpridas.

Entre outras coisas, Lula disse o óbvio ao falar da importância da interação da equipe que comanda. “Não pode a cada reunião vir uma pessoa diferente, do ministério, apenas para ocupar uma cadeira.” O pito valeu para nove – isto é, a maioria – dos dezesseis ministros que integram o conselho, responsável pela orientação e, em última análise, pela gestão do programa Fome Zero, o mais importante programa social do atual governo.

Cada um governa como pode ou quer, é verdade. Mas o melhor seria substituir o bem remunerado colaborador que está faltando com seus deveres sem fazer alarido. Sem isso, a cobrança pública fica apenas para inglês ver. Ou, por outra, para dar a impressão que o presidente não está tendo o sucesso desejado, não por culpa sua, mas e apenas por culpa de terceiros subalternos. Qualquer desavisado correspondente estrangeiro, vendo e ouvindo isso, diria que o governo está desorientado ou, no mínimo, sofre de sérios problemas internos, em detrimento de toda a população brasileira.

Já isso observou recentemente, de outra forma, o vice-presidente José Alencar. Sorte dele que explodiu o caso dos tragos. Mas o registro (e o estrago) foi feito. Para Alencar, a política fiscal adotada pelo governo a que serve é “irresponsável”. No campo da reforma agrária apontou a falta de um projeto “avançado” como a causa dos conflitos. Falou e nada aconteceu. Ninguém dá resposta à crítica que nasce dentro da própria casa. O solitário e desconfortável bate-boca do ministro Guido Mantega no Congresso em defesa do valor do novo salário mínimo, a derrota sofrida no Senado na questão do fechamento dos bingos – tudo isso contribui para fazer parecer que o governo está mesmo desorientado.

Não bastasse tudo quanto aqui acontece, outro que resolveu meter sua colher torta no angu foi o ex-presidente Itamar Franco. Na condição de embaixador brasileiro em terras italianas, ele lembra os cargos que já ocupou de governador, senador e presidente da República para justificar suas imutáveis convicções. Ele se diz convencido de que “está na hora de substituir a ordem econômica” que aí está. Não diz como seria, mas está na hora, segundo imagina, de ouvir as vozes mais do que roucas das ruas. E deixar de ser teimoso. O presidente Lula poderia dormir sem essa.

Mas o presidente Lula ouve as vozes à sua maneira. Puxando orelhas em público e prometendo o que já não seria mais objeto de promessa, mas de simples realização. Cumprirá tudo quanto disse na campanha, repetiu ainda outro dia para índios reivindicantes que lhe colocaram um cocar na cabeça. Ao que o ex-pajé Fernando Henrique Cardoso, sempre atento, advertiu durante uma palestra para supermercadistas: “É ruim você ter que não fazer o que disse que ia fazer”. Isto é, não adianta você prometer que vai acabar com a fome. É preciso acabar com a fome. Simples.

O tempo de vender ilusões já passou. Aos poucos, o povo brasileiro começa a perceber que não há milagres e que bravatas não conseguem alimentar esperanças por muito tempo. Pena que lá em Brasília perde-se tempo com egos e balões inflados. Aqui na planície, o que conta é emprego, salário, desenvolvimento, segurança. Coisa que o presidente Lula não conseguirá com discurso. Nem interno, nem externo. É preciso ação.