Prosperidade vinculada

A estrela-guia do governo Bush, segundo o desconcertado secretário do Tesouro norte-americano, Paul O’Neill, é o comércio justo e sem barreiras. Seria uma frase bonita a provocar água na boca de muitos. Mas estrela nenhuma resiste aos interesses da indústria de seu país. Por isso ele defende com unhas e dentes as medidas protecionistas adotadas por seu governo, mesmo que elas representem golpe mortal para as indústrias do Brasil ou do resto do mundo. Com essa posição fica o dito pelo não dito e a defesa da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) fica parecendo samba de uma nota só.

O nariz arrebitado de O’Neill não é culpa dele. Pessoalmente ele até que procurou ser simpático por onde passou, em sua visita ao Brasil, depois de nos ter espinafrado e aumentado com isso a intensidade do furacão que abala nosso mercado financeiro. A imagem dele autografando notas de um dólar não refez os humores do mercado e, apesar de ter repetido que confia no Brasil, nos brasileiros e nas pessoas que dirigem o Brasil, serviu para lembrar coisas menos lisonjeiras que sobre nós e nossos vizinhos dissera antes. Serviu a mensagem: corrupção não é privilégio da América do Sul. Que o digam os próprios norte-americanos e suas gigantescas fraudes contábeis que ascendem a bilhões de dólares valorizados. Que o diga o próprio Bush, envolvido pessoalmente num desses escândalos. Que o diga também seu vice.

Fez bem por isso o presidente Fernando Henrique Cardoso ao evitar, deliberadamente, o registro de qualquer imagem sua ao lado do visitante. É uma atitude simbólica que mostra que o povo brasileiro sabe ser amável e respeitoso, mas também é cioso de sua própria dignidade. Somos uma nação que tem problemas, nós o sabemos, mas cuja vastidão e diversidade de riquezas merecem respeito, assim como também merecem respeito os mais de 170 milhões de brasileiros.

Disse O’Neill – repetindo Bush – que a prosperidade de todos os povos das Américas está irremediavelmente vinculada, premissa que tem o objetivo de, irmanando-nos num mesmo objetivo, pavimentar a estrada da Alca, de grande interesse norte-americano. Vinculação, entretanto, não significa subordinação. E novamente o visitante levou pela proa uma consideração que seguramente deve fazer seu governo pensar um pouco mais: o desafio, disse-lhe o governo brasileiro, é alcançar um acordo equilibrado, que permita ganho a todos, não apenas ao lado mais forte. Por enquanto, pelo menos, a prioridade nossa reside em outras tarefas. O fortalecimento do bloco regional do quase finado Mercosul, por exemplo.

As impressões levadas dessa visita – pelo menos as publicamente manifestadas – foram as melhores possíveis, externou o visitante. Deixou sem resposta, entretanto, uma pergunta que lhe fizeram a respeito das conseqüências práticas de seus contatos com os comandantes da nossa equipe econômica. Barreiras alfandegárias excessivas e subsídios agrícolas sem precedentes podem socorrer interesses americanos, não, porém, interesses brasileiros, argentinos ou de outros países integrantes dessa área onde se pretende uma “prosperidade vinculada”, sim, mas interdependente e sem hegemonias.

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