Cátia Cristina Gomes

Pensar no trabalho com projetos, na escola, me remete a refletir sobre a busca de alternativas para um processo de construção do conhecimento compartilhado e significativo.

Esse processo deve buscar, pela pesquisa, conhecer mais e melhor os objetos de estudo. O diálogo deve tornar a escola um lugar de intercâmbios, no qual alunos e professores participam e transformam em aprendizagem as experiências sociais. No qual a humildade diante dos não saberes seja a válvula propulsora e desafiadora para os novos conhecimentos, promovendo envolvimento e comprometimento com o ato de ?aprender? e de ?ensinar?.

Discutir projetos enquanto possibilidade educativa é acirrar o debate, no cotidiano escolar, a respeito de questões inquietantes, como:

– Que conteúdos estão presentes na escola?

– Quais as finalidades desses conteúdos?

– E se eles não forem trabalhados? O que se perde com isso? Quem perde?

– Como se articulam os vários saberes no currículo escolar?

– Afinal, de que saberes estamos falando?

– Quais as conexões entre os saberes instituídos e o contexto histórico cultural dos atores do processo ensino e aprendizagem?

– Qual o papel da escola e o papel do professor, neste novo milênio, frente a todas essas indagações?

Como as questões são muito amplas, gostaria de restringir minhas reflexões em torno de um ponto bastante significativo: como transformar a escola numa comunidade de aprendizagem*, onde a paixão pelo conhecimento e a educação de melhores cidadãos seja a grande meta?

A proposta educativa a que se vinculam os projetos de trabalho pode ser uma via para dialogar e dar respostas a esta indagação, como também pode vir a ser um importante avanço na reflexão de professores e alunos. Pode, também, ampliar a visão fragmentada do trabalho escolar e propor a investigação de temas extremamente relevantes e de importância social.

A relevância dessa proposta está no pensar do professor, que é anterior a sua decisão de desenvolver um projeto. A relevância está no seu desejo de criar, inovar e ir além, pesquisar a realidade e levar seus alunos ao pleno exercício da observação, interpretação, análise e síntese.

Quando o professor tem este compromisso, que é ético e político, e acredita no intercâmbio entre as pessoas para planejar e propor mudanças de atitudes, quando o professor conhece a forma como as pessoas aprendem e planeja para que esta aprendizagem provoque desenvolvimento, poderá realizar o seu trabalho com esta ou outra proposta educativa, que venha a promover o crescimento pleno do indivíduo.

Por outro lado, não se pode deixar de analisar o que diz Boutinet (1999, P.16), quando nos alerta para o fato de os projetos não se tornarem mais um modismo, e eu saliento este cuidado especialmente na área educacional tomada, muitas vezes, por uma enxurrada de novidades, que penetram no ambiente escolar por imposição, por entusiasmo, sem nenhuma análise crítica.

?A mania do projeto nos conduz a um fluxo incessante de iniciativas através de uma fuga para o inexistente, que apresenta todas as virtudes em relação ao presente. Tal fuga acarreta uma desvalorização da ação que se deixa aniquilar pelo ativismo, quando o que conta não é mais a coerência e a pertinência do empreendimento feito, mas a capacidade de esboçar novos empreendimentos.?

Neste sentido, vale ressaltar que existe nas escolas um grande apelo para se trabalhar com projetos, porém a falta de conhecimento sobre esta prática tem levado muitos professores a conduzir atividades totalmente insipientes, denominadas de projetos*, com resultados bastante desastrosos para o processo de construção do conhecimento.

Entre as várias hipóteses que poderíamos levantar para as dificuldades em se trabalhar com projetos, Hernández (1999, P.13) nos chama a atenção para algumas em especial:

?(…) a perda da autonomia do discurso do docente, a desvalorização de seus conhecimentos, bem como para a substituição destes por discurso que pouco respondem ao que acontece na sala de aula. Neste sentido reivindica as vozes dos docentes frente às dos especialistas e experts partindo da convicção assinalada por Stenhouse, de que as inovações ou são realizadas pelos professores ou acabam não acontecendo.?

Isto nos remete a pensar na dimensão política do professor. Por isso, deve-se pensar na escola como uma comunidade de aprendizagem, como um espaço de construção e reconstrução do saber e do fazer pedagógico, onde os sujeitos da comunidade se comprometem com o seu processo e com o processo coletivo.

O educador, provocador e mediador do ato de ensinar e de aprender, precisa estar sempre se apropriando de novos e infinitos conhecimentos. O trabalho com projetos, refletido e planejado, abre caminhos para a ousadia de novas buscas, da pesquisa, da transformação do medo e da insegurança num exercício do pensar. É um exercício de descobrir-se. É a possibilidade de ser especialista, não em uma determinada disciplina, mas no processo de aquisição do conhecimento.

?É equívoco fantástico imaginar que o ?contato pedagógico? se estabeleça em ambiente de repasse e cópia, ou na relação aviltada de um sujeito copiado (professor no fundo também objeto, se apenas ensina a copiar) diante de um objeto apenas receptivo (aluno), condenado a escutar aulas, tomar notas, decorar, e fazer prova. O ?contato pedagógico? escolar somente acontece, quando mediado pelo questionamento reconstrutivo. Caso contrário, não se distingue de qualquer outro tipo de contato.? (Demo, 1997, P.7)

*Comunidade de aprendizagem compreendida como todos os envolvidos no processo de ensino e aprendizagem.

*Apelo este que nem sempre parte do grupo de professores, muitas vezes é imposto.

Cátia Cristina Gomes é Consultora Educacional.

Referências:

BOUTINET, Jean-Pierre. Antropologia do projeto. Porto Alegre, Artes Médicas, 1999.

DEMO, Pedro. Educar pela pesquisa. Campinas, Editores Associados, 1996.

FAZENDA, Ivani (Org.). Práticas interdisciplinares na escola. São Paulo, Cortez, 1995.

HERNÁNDEZ, Fernando. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre, Artes Médicas, 1998.

NOGUEIRA, Nilbo Ribeiro. Interdisciplinaridade aplicada. São Paulo, Érica, 1998.

Pedagogia dos projetos: uma jornada interdisciplinar rumo ao desenvolvimento das múltiplas inteligências. São Paulo, Érica, 2001.

SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Porto Alegre, Artes Médicas, 1998.