O lixo e os resíduos que desafiam produtores rurais e cidades paranaenses estão prestes a virar combustível do futuro, empregos qualificados e riqueza regional. A Universidade Federal do Paraná (UFPR) foi credenciada pela Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) para sediar o novo Centro de Competência em Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono. A iniciativa injetará R$ 98 milhões na instituição em quatro anos — sendo R$ 60 milhões federais e R$ 38 milhões do setor privado.
Com aprovação prevista no Conselho Universitário para este mês de agosto, o Centro estruturará uma Associação Tecnológica de empresas no Centro Politécnico, em Curitiba, com expansão para Piraquara. O modelo divide os riscos da inovação: indústrias financiam pesquisas direcionadas às suas reais dores operacionais e ganham o direito de comercializar as patentes geradas.
“Nosso papel é auxiliar a indústria a inovar reduzindo o risco de investir em tecnologias disruptivas”, explica o professor da UFPR, Helton José Alves, titular do projeto. “Queremos substituir o hidrogênio fóssil pelo renovável. O diferencial do Brasil é a biomassa. Saltamos de 200 para quase 2 mil plantas de biogás na última década, mas aproveitamos só 5% dos resíduos. Descentralizar essa produção no interior reduz custos de transporte — que hoje representam 40% do valor final — e descarboniza indústrias pesadas.”

No campo, a aplicação é direta. Para o professor de bioenergia da UFPR, André Bellin Mariano, o objetivo é resolver problemas urgentes. “No Oeste do Paraná, a suinocultura gera toneladas de efluentes. Em vez de ver o esterco como problema ambiental, olhamos como oportunidade energética. Transformaremos o biogás em hidrogênio verde e fertilizante na própria fazenda, dando autonomia ao produtor”, explicou o docente.
O diferencial do Centro é o foco no alto nível de maturidade tecnológica (TRL), garantindo que a pesquisa saia do laboratório e vire nota fiscal e novos postos de trabalho. Essa ponte é operada por cientistas formados na própria casa. O pós-doutorando Marcos Polinarski, com doutorado duplo no Canadá, destaca a relevância da infraestrutura local: “O Brasil tem capacidade de liderar a transição energética. Atuar do estudo fundamental até a planta-piloto nos aproxima dos desafios reais do mercado.”
Trajetória similar vive a doutoranda Bruna Machado, que opera a primeira planta-piloto de hidrogênio da universidade (B2H2). “A vivência prática em plantas-piloto nos prepara de forma única para a indústria. Saber que nosso trabalho no laboratório pode reduzir emissões e gerar riquezas para o Paraná dá sentido à ciência”, conclui.
