O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, deixou hoje em Brasília o primeiro alerta público de uma autoridade americana contra o projeto da Venezuela de reaparelhamento de suas forças armadas. Em entrevista à imprensa, na manhã desta quarta-feira (23), Rumsfeld acentuou sua preocupação com a compra de 100 mil fuzis russos AK-47 pela Venezuela e apresentou dúvidas sobre o uso e o destino desse armamento – em uma indicação do temor de Washington de que as armas acabem em mãos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs) e de outros grupos terroristas.

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A mesma inquietação havia sido reiterada minutos antes no encontro reservado entre o principal falcão do presidente George W. Bush e o vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar. "Estou preocupado com a compra de 100 mil fuzis AK-47 pela Venezuela. Não posso imaginar o que vai acontecer com esses fuzis. Por que a Venezuela precisa deles?", declarou o secretário de Defesa. "Não vejo como isso pode contribuir com a estabilidade no Hemisfério", completou.

O recado foi lançado em direção certeira. Surgiu justamente a seis dias de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcar em Ciudad Guayana, na Venezuela, onde deverá testemunhar a "paz" selada entre Chávez e o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe. Outra testemunha deverá ser o presidente do governo da Espanha, José Luís Rodríguez Zapatero. No mês passado, Lula havia assinado com Chávez uma "aliança estratégica", centrada nas áreas energética e de mineração, que será estendida também à Colômbia.

O governo Bush considera que o Brasil e, particularmente o presidente Lula uma espécie de força moderadora dos impulsos da Venezuela de Hugo Chávez. Nos últimos meses, Chávez assumiu um discurso cada vez mais agressivo em relação aos Estados Unidos, na medida que Washington foi disparando suas reações contra as compras de armas por Caracas. O presidente da Venezuela acusou publicamente o governo americano de montar um plano para assassiná-lo e chegou a levantar suspeitas de uma invasão de seu país por tropas dos Estados Unidos. Washington, por sua vez, criticou a "estratégia de hiena" de Chávez na região e sua influência nociva na recente crise na Bolívia.

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ONU

Rumsfeld aproveitou o contato com Alencar para reforçar o apreço do governo Bush com a liderança do Brasil das Forças de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah) e seu agradecimento. Destacou ainda que a iniciativa brasileira refletiu a liderança do País na região, mas esquivou-se de transformar esse "crédito" em apoio concreto dos Estados Unidos ao ingresso do Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas como membro permanente. "O Departamento da Defesa não tem papel na definição desse apoio. Essa é uma questão para o presidente (Bush) e para a secretária de Estado (Condoleezza Rice)", disse.

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Em sua passagem de cerca de 20 horas por Brasília, Rumsfeld sugeriu a assinatura de um acordo geral de cooperação na área de Defesa entre os Estados Unidos e o Brasil, assim como os que o País firmou com a China, a Índia, a África do Sul e a Rússia. Mas teve o cuidado de não vincular essa proposta à intenção dos Estados Unidos de obter maior apoio do Brasil na luta contra o narcotráfico, o crime organizado e o terrorismo. O governo brasileiro não lhe deu resposta sobre acordo.

Após seu encontro com o presidente Lula, no Palácio do Planalto, Rumsfeld embarcou para Manaus, onde visitou a sede do Sistema Integrado de Vigilância da Amazônia (Sivam).

O secretário disse que não foi informado sobre a suspeita do FBI, a polícia federal dos EUA, de que passaportes brasileiros tenham sido falsificados por grupos terroristas interessados em infiltrar seus agentes nos Estados Unidos. Em princípio, o governo americano considera que não há dúvidas de que as comunidades árabes nas regiões de tríplice fronteira do Cone Sul não estão envolvidas em ações terroristas, embora mantenha suspeitas de que financiam, por meios ilícitos, esses grupos. Fontes de Washington também asseguraram que não há nenhuma queixa em relação à elevada cooperação do Brasil, da Argentina, do Paraguai e do Uruguai nessa área.