Os principais envolvidos no "valerioduto", esquema de fornecimento de dinheiro ao PT para pagamento de propina a deputados, em Minas Gerais, preferiram o silêncio, após a divulgação do relatório final do relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) Mista dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR). Valério, sócio das agências de publicidade DNA Propaganda e SMP&B, acompanhou a divulgação do relatório na capital mineira, mas preferiu não se pronunciar. Ele é acusado de nove crimes, entre eles, o de falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e corrupção ativa.

O presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e vice-governador de Minas Gerais, Clésio de Andrade (PL), cujo indiciamento também foi pedido no parecer, é investigado pela CPI no caso do financiamento de caixa dois de Valério ao PSDB mineiro nas eleições de 1998. Andrade nega. Mas o empresário afirmou à comissão que ele o procurou para que tomasse um empréstimo no Banco Rural, suposta fonte de recursos para os tucanos do Estado naquela eleição. Andrade foi sócio de Valério na DNA Propaganda, mas deixou a empresa em 1998. A reportagem procurou o presidente da CNT e vice-governador de Minas Gerais, mas a assessoria informou que ele viajava e estava incomunicável.

A direção do BMG também não quis se pronunciar. O dono do banco, Ricardo Guimarães, cujo indiciamento também é pedido no documento, é acusado de corrupção ativa, lavagem de dinheiro e fraude na administração de sociedade por ações. Além de Guimarães, Serraglio requer o indiciamento de outros dois diretores da instituição financeira: José Otávio de Carvalho Lopes e Janaína Pereira, por prática de falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

Sobre a acusação de ter participado de uma "farsa", ao emprestar dinheiro ao PT, e de praticar uma "mera formalidade contábil e financeira" para "mascarar" a origem dos recursos, como descrito no parecer, o Rural informou que "não concorda com a conclusão apontada pelo relatório". Conforme o banco, "todos os empréstimos concedidos, seja para o PT ou para as empresas do empresário Marcos Valério, cumpriram as normas do Banco Central (BC)". Em nota, a instituição financeira alega ainda que todos os empréstimos "constam da contabilidade do banco e foram informados aos órgãos reguladores". A instituição também nega que Oto Diniz Amorim, indiciado por fraude na administração de sociedade por ações, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro, tenha sido diretor da empresa.

O ex-tesoureiro da campanha do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) ao governo do Estado, em 1998, Cláudio Mourão, também não quis comentar o documento. Já Azeredo, cujo indiciamento foi solicitado por crime eleitoral, por ter usado R$ 9 milhões não-contabilizados na campanha ao Palácio da Liberdade, sustenta que não pode ser acionado judicialmente, pois o relator da CPI dos Correios afirmou que o suposto crime está prescrito. "Recebi com estranheza e indignação a informação de que o relatório final da CPMI dos Correios pede o meu indiciamento por crime eleitoral", diz.