Primeiras vaias

As vaias ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva começaram pelo flanco mais ostentado até aqui – o programa Fome Zero. Outro dia, o ministro José Graziano, da Segurança Alimentar, passou maus momentos em Fortaleza, ao ser “saudado” como demagogo, discriminador e – no mínimo, um disparate – “filhote de Saddam”. “O que o governo de vossa excelência tem a agradecer ao FMI?”, perguntaram a Graziano, numa clara referência à recente viagem do ministro Antônio Palocci aos Estados Unidos para, segundo ele próprio anunciou, agradecer os freqüentes elogios de dirigentes do Fundo Monetário Internacional às medidas econômicas até aqui adotadas pelo governo federal.

Como se vê, o protesto e a xingação foram contra Graziano, mas não só. O ministro continua pagando caro a escorregada verbal que cometeu, logo no início, quando advertiu empresários para a necessidade de alargar os horizontes sociais na tentativa de estancar a vertente migratória nordestina (e não só), uma das causas dos bolsões de miséria e violência em grandes cidades como São Paulo. O ministro já se desculpou inúmeras vezes, mas continua ouvindo “abaixo a discriminação, nordestino não é ladrão”. Mas já na evolução do discurso, ouve coisas mais sérias como “fora demagogo, nordestino não é bobo”.

É quase um vitupério tachar o programa Fome Zero de demagogia, mas já acontece aqui e acolá, com algumas pitadas mais contundentes até: “Seu doutor, uma esmola a um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. O repente, atribuído ao poeta popular cearense Patativa do Assaré, pode funcionar em contraponto à campanha de distribuição de dinheiro, já reverberada também aqui no Sul por prefeitos que preferem – como o de Bocaiúva do Sul, no Vale do Ribeira – estradas, indústrias e empregos às doações patrocinadas pela coordenação governamental Fome Zero. Ou, como diria o senador Paim, em sua defesa por um salário mínimo mais decente: o que mitiga a fome de verdade é uma remuneração justa pelo trabalho feito, não a esmola.

Não livre da pecha de discriminador dos nordestinos, o ministro Graziano – que, pelo menos na aparência, não tem pinta de demagogo – se vê já às voltas com outro tipo de venenoso incêndio. Sem contestação por enquanto, ele disse que, para combater a “cultura machista” que desvia a grana para outras finalidades, o dinheiro será entregue apenas a mulheres (mãe ou mulher representante da família). Com ordem assim geral e minuciosa, só resta agora resolver os problemas de núcleos familiares onde não exista mulher ou a guarda dos filhos esteja sob a responsabilidade dos pais…

Perdido assim em minudências, o programa que é a menina dos olhos de Lula pode suscitar debates mais acalorados que esses em que está em questão a participação dos nordestinos na construção de São Paulo. Afinal, mesmo na pobreza e na miséria há dignidade. E miseráveis representados já começam a produzir resposta à altura da ofensa: “Os verdadeiros marginais são os que durante todos esses anos saquearam este País; os que levaram à miséria o nosso povo”, como metralha um representante da própria (CUT) Central Única dos Trabalhadores, cujo nome a crônica manteve em segredo.

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