Um mês depois do seqüestro de oito jovens na favela de Vigário Geral, na zona norte do Rio, o traficante Cauã da Conceição Pereira, de 30 anos, conhecido como Furica, foi preso hoje na vizinha Parada de Lucas. "Perdi", disse o homem apontado como chefe do tráfico de drogas de Lucas e acusado de ter ordenado o rapto e provável morte dos rapazes, ao ser surpreendido por policiais civis na casa que ocupava na favela.

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Na delegacia, apesar de negar ser traficante, Furica foi reconhecido por três mães, uma irmã e uma namorada das vítimas. Segundo elas, Furica foi um dos homens que entraram nas casas com fardas da Polícia Militar e levaram os jovens. O paradeiro dos oito jovens ainda é desconhecido.

Levadas para a delegacia para fazer o reconhecimento, algumas mães choraram e passaram mal aos ver Furica. "Foi ele que bateu no portão dizendo que era policial e eu abri. Ele entrou, revirou minha casa e levou meu filho dizendo que ia levar para o postinho (posto policial local) para averiguar. Até hoje estou esperando a volta do meu filho", disse a mãe de um rapaz de 16 anos, que pediu para não se identificar. "Ele estava com o boné bem puxado para o rosto, mas hoje, cara a cara com esse Furica, eu reconheci até o jeito dele. Quando ele se pôs de pé na sala era o mesmo homem que eu vi na minha casa levando o meu filho", disse, chorando.

Uma das mulheres chegou a discutir com o advogado de Furica. Alguns parentes protestaram pedindo Justiça na porta da delegacia, a maioria escondendo o rosto com medo de represálias.

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Na madrugada do dia 13 de janeiro, depois que policiais militares fizeram uma operação com um veículo blindado em Vigário Geral, traficantes de Lucas aproveitaram a fragilidade dos bandidos locais e invadiram a comunidade para levar os oito jovens, que seriam desafetos deles, em uma disputa do tráfico que começou há duas décadas. Guiados por um menor de 17 anos, o único participante detido até agora, e fardados como PMs, eles teriam contado com a ajuda de policiais militares do posto policial que fica na divisa das duas favelas.

Para o subchefe de Polícia Civil, José Renato Torres, a prisão de Furica aproxima a polícia do paradeiro dos jovens. "A polícia está toda envolvida em elucidar esse caso. Com certeza, esse inquérito vai terminar, assim como foi esclarecido o caso do ônibus 350. Nesse momento, demos um passo largo na investigação, identificação e prisão de toda a quadrilha de Lucas."

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Operação

A equipe de 15 policiais, comandada pela delegada Adriana Belém, monitorava ligações telefônicas do bandido há três meses. Depois de uma tentativa frustrada de prendê-lo, há cerca de um mês, os agentes fizeram um levantamento de informações sobre o local em que Furica se escondia, até com fotos aéreas. Com base nesse trabalho e com a ajuda de um helicóptero, os policiais ocuparam as principais rotas de fuga por volta de 3h30 de hoje. Pouco antes das 4h surpreenderam o bandido quando ele saía de casa e o prenderam sem disparar um único tiro. Furica estava desarmado e não reagiu.

"Ele pedia a todo momento que o tirássemos logo dali porque poderia haver reação. Ele tinha medo até de ser morto por outros traficantes. Por isso, para preservar a comunidade, o retiramos. No entanto, ele nega tudo. Só assume que foi bandido, mas que deixou de ser depois que a mãe foi morta", disse a delegada Adriana Belém.

Segundo ela, além de ter comandado o seqüestro, Furica deu ordem para atirar e inviabilizar o protesto de mães na divisa entre Vigário e Lucas na semana passada. "Outras quatro pessoas da quadrilha de Furica já foram identificadas e são o nosso próximo alvo", disse a delegada.

Com a prisão de Furica, a polícia descobriu que ele usava documentos falsos com o nome de Jorge Williams de Oliveira Bento, que constava em um dos inquéritos sobre ele na delegacia de Braz de Pina (38º DP). Por isso, acredita a delegada, o preso negou ser Furica. Diante da imprensa, ele disse ser padeiro e que saía para trabalhar. "Vocês estão cometendo uma injustiça. Meu nome é Cauã". Para a delegada, não há dúvidas. "Todos negam. Ele diz isso porque ninguém tinha o nome dele. Nós tínhamos, mas como estávamos fazendo um serviço de inteligência não podíamos divulgar", disse Adriana.

Descrito pelos moradores de Vigário Geral como um bandido violento, o temido Furica nunca tinha sido preso. Nascido em Recife, veio para o Rio ainda criança e viveu com a família em Vigário Geral. Mudando-se para Lucas, tornou-se o sucessor de Robertinho de Lucas no comando do tráfico de drogas na favela. Furica é suspeito de ter mandado matar Robertinho, a quem responsabiliza pelo assassinato da mãe. Para a delegada, tudo indica que ela também estava envolvida com o tráfico de drogas.