Presidente da Eletronorte pede demissão ‘em caráter irrevogável’

Pressionado pela da crise que separa o PTB da base de apoio do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente das Centrais Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte), Roberto Salmeron pediu hoje demissão, "em caráter irrevogável", numa carta de três linhas, que ele mesmo entregou à ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff. Foi o primeiro gesto de uma decisão combinada com o presidente nacional do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ), durante o fim de semana.

"Todos os que são do PTB e foram indicados pelo Roberto Jefferson vão deixar os cargos", disse Salmeron, depois de um discurso de 40 minutos, onde se despediu dos cerca de 40 funcionários que superlotaram um auditório da Eletronorte, no Setor Comercial Norte de Brasília.

Aos 63 anos, economista, professor, homem de confiança do presidente nacional do PTB e da executiva nacional do partido ele ficou um ano e 24 dias no comando. Salmeron afirmou que sai para evitar que a empresa seja contaminada pela crise política.

"A Eletronorte é maior que eu e tem de sair da crise. A crise sou eu", disse, ao afirmar que, de todos os membros do Conselho de Administração da estatal, apenas ele havia sido indicado pelo PTB e exercia o cargo por influência política. "Valeu a pena? Valeu demais. Foi um ano de aprendizado. Saio mais rico em conhecimento", afirmou.

A decisão, segundo Salmeron, era amadurecida desde que o ex-chefe do Departamento de Compras e Administração de Material dos Correios Maurício Marinho apareceu na gravação de vídeo detalhando o funcionamento de um esquema de corrupção na estatal envolvendo Jefferson e o PTB. A entrevista do presidente nacional petebista, divulgada hoje pelo jornal "Folha de S.Paulo", apenas precipitou um ato que ele havia discutido com a direção do partido.

"Estou alegre e satisfeito. Quem está num cargo político entra num dia e sai no outro", afirmou. Durante a entrevista, Jefferson citou um a um os funcionários com os quais conviveu enquanto presidiu o Conselho de Administração da estatal.

"Vamos nos encontrar no aeroporto, nos supermercados, nas festas de São João, nos seminários e, quem sabe, no restaurante da Ilda", disse, provocando risos na platéria, ao se referir a um bandejão que freqüentava com os funcionários da Eletronorte.

Salmeron disse que a saída é uma "volta à alma, sem as insinuações da imprensa". "Sinto alegria por deixar a empresa em paz", afirmou. Na Eletronorte, ele administrou um orçamento anual de R$ 900 milhões, mas destacou que as ações da gestão estiveram voltadas para o corte de gastos da estatal, entre eles os de viagens e seminários. A grande obra da administração eram as obras de conclusão da segunda etapa da Hidrelétrica de Tucuruí, com um orçamento de R$ 1,3 bilhão.

Assim que terminou o discurso, Salmeron foi ao Ministério das Minas e Energia despedir-se de Dilma. Entregou a ela a carta de demissão e repetiu parte do longo discurso que havia feito pela manhã.

A ministra aceitou a demissão sem ponderações ou apelos para que ficasse. Embora aliviado politicamente, o ex-presidente da Eletronorte terá dificuldades pela frente.

Citado por Marinho como um dos homens que agiam pelo PTB junto a órgãos do governo, ele deverá ser intimado a prestar depoimento à Polícia Federal (PF) e ao Ministério Público (MP). "O Marinho já desmentiu tudo na Polícia Federal. Nunca operei com ninguém. Meus cargos no governo sempre foram técnicos", disse Salmeron.

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