Outra vez o presidente Lula pode fazer o discurso que mais gosta – o da guerra contra a fome e contra a miséria que, segundo dados oficialmente aceitos, constituem a causa do suplício para 53 milhões de brasileiros e brasileiras. Entre este mundo dos desvalidos e o universo dos cidadãos bem nutridos, o presidente agora quer construir uma ponte. “E o nome dessa ponte – disse – chama-se oportunidade.”

O discurso foi feito na solenidade de relançamento dos programas sociais do governo, desde o último dia 20 unificados sob o guarda-chuva da Bolsa Família. Concebido (e adiado) para dar carona também a governos estaduais e municipais, essa integração falhou já no primeiro teste. Dos 5.561 prefeitos pouco se falou, não se tendo notícia de quantos compareceram para prestigiar o ato. Mas dos 27 governadores, apenas quatro bateram ponto, além de dois interinos. Nenhuma parceria havia sido assinada até a data e apenas seis estados chegaram a apresentar propostas. Mesmo assim, o programa mantém a meta ousada de beneficiar, até o final deste ano, um universo de 3,6 milhões de famílias, e chegar em 2006 com o recorde de 11,4 milhões de famílias atendidas.

Segundo Lula, o governo agora está no caminho certo. “Não estamos tirando nenhum programa existente”, disse, para explicar que quem estava recebendo o plano velho vai continuar recebendo o plano velho, “até que a gente possa atingir todas as pessoas”. E, embora o Bolsa Família ainda não tenha a garantia de toda a verba necessária para atingir as metas fixadas, Lula aposta no sucesso de olho na caridade alheia. “A sociedade – disse – ainda está participando com apenas 10% do que ela pode participar.”

Essa foi, na verdade, a primeira e retumbante tentativa de correção de rumos do governo que iniciou sob a égide do programa Fome Zero, até aqui cheio de idas e vindas e que chegou ao fim do primeiro período de governo – o da gestação de 9 meses – sem produzir os resultados esperados.

O brilho da festa programada para a retomada dos programas sociais em grande estilo foi ofuscado por uma estranha coincidência: a fritura da ministra da Assistência e Promoção Social, Benedita da Silva, exatamente a pessoa a quem havia sido confiada a tarefa de unificar as ações do governo na área social. Tanto ela quanto o ministro José Graziano, da Segurança Alimentar e Combate à Fome, perderam poderes e atribuições, agora concentrados nas mãos de uma socióloga – Ana Fonseca – que responde diretamente às ordens do presidente com o status de secretária-executiva.

Se a situação de Graziano é desconfortável, a de Benedita é mais ainda. Ao cometer o deslize da viagem de orações a Buenos Aires, financiada com dinheiro público, passou a atolar-se num mar de versões contraditórias, que vão do alegado preconceito religioso à mentira construída com a ajuda de advogado e o envolvimento do próprio presidente da República no qüiproquó. Benedita mentiu antes ou depois (ou antes e depois) e já não mais merece o designativo de “companheira” por parte do presidente que açodadamente a defendeu em boa fé. “Benedita fica fora da vitrine social de Lula”, disseram os jornais no dia seguinte.

Por essas e outras, esse recomeço era necessário, sem sombra de dúvidas, e tomara que o governo Lula encontre os engenheiros certos para a construção da ponte que pretende entre o Brasil que come e o Brasil que passa fome. Mas uma questão básica continua sem resposta: de que adianta distribuir dinheiro sem criar a oportunidade de emprego? Continuará o governo a convocar a sociedade para a tarefa da distribuição dos peixes sem providenciar a distribuição de anzóis e ensinar a pescar? Quando, enfim, começará o espetáculo do crescimento? Não seria esta a mais apropriada ponte chamada oportunidade referida no discurso presidencial?