Depois de perambular por mais de 20 anos pelas ruas de Campo Largo (20 quilômetros de Curitiba) catando lixo reciclável para sustentar os três filhos, Tereza de Jesus de Moraes prepara-se para assumir uma cadeira de vereadora pelo PPS na Câmara Municipal, em fevereiro próximo. A eleição de Tereza da Latinha, como é conhecida na cidade, não foi um destes acidentes de percurso da política, nem se deve a quebra de votos proporcionais de legenda ou qualquer outro truque eleitoral.

Ela saiu das urnas como a vereadora mais votada de Campo Largo, com 2.771 votos, mais de mil à frente do segundo mais votado. Se o eleitor deu-lhe esta pequena montanha de votos por galhofa ou desprezo aos políticos tradicionais, pouco importa.

Tereza da Latinha, aos 51 anos, faz planos e projetos.

Antes de mais nada, vai voltar à escola, que abandonou no terceiro ano do primário, ainda criança. Quer cercar-se de uma assessoria competente em seu gabinete de vereadora e está cheia de idéias mas sobre as quais decidiu que manterá segredo, depois que sua principal proposta de campanha, relativa à reciclagem do lixo no município, foi copiada por um vereador em fim de legislatura.

"Ainda estou meio assustada, vim do nada e agora serei vereadora", diz ela. "Mas sei o que quero. Vou fazer política para ajudar a melhorar a vida das pessoas da minha cidade. E eu conheço bem estas pessoas, sei do que precisam." O sonho de entrar na política, afirma, vem desde os 12 anos. "A minha revolta é pelo desemprego e pela miséria. O problema da saúde também não recebe atenção. O povo não merece tanto desprezo. É por isso que entrei", lembra.

Já dormiu com os filhos debaixo de viaduto e já passou fome. A despeito da adversidade, diz que nunca se rendeu à tristeza. "Sempre fui feliz", garante. E o pior já passou.

Mãe de Márcia, Adão e Eva, cinco netos, Tereza da Latinha sustenta quase sozinha a família há três anos, desde que o marido, Francisco de Moraes, ficou doente e bate à porta da previdência reivindicando a merecida aposentadoria. Márcia, funcionária da prefeitura, ajuda em casa; o filho Adão é portador de necessidades especiais. Catando latas de cerveja e refrigerantes e todo tipo de tralha reciclável, Tereza consegue juntar uns 500 reais no final do mês. Em casa, gasta R$ 120 com aluguel, despesa que chega a R$ 200 com água, luz e gás. O resto é para comida.

A bugiganga amealhada na rua era tanta que abriu em sua casa de três cômodos uma lojinha de roupas e objetos usados, um brechó da miséria que chamou de "loja do que não presta". A clientela é formada pelo lumpesinato, que regateia e paga em dia.

Há uns dois anos, Tereza da Latinha foi convidada por Júlio Torres, filho de Sebastião Torres, candidato do PPS a prefeito em outubro, a se filiar ao partido. Aceitou e começou a freqüentar as reuniões do diretório municipal. No início foi recebida com um misto de desdém e indulgência. A simpatia pessoal superou os preconceitos.

Tereza acabou incluída na chapa de candidatos a vereador. A campanha foi casa a casa, bairro a bairro. Mas com o detalhe: não se limitou à periferia pobre, bateu à porta da grã-finagem, da classe média. Gastou a sola do tênis surrado e correu o trecho, como se diz na gíria dos candidatos.

A cada eleitor, entregava um santinho e recitava um discurso curto e grosso, em forma de trova. As rimas, pobres e óbvias, foram retribuídas com quase três mil votos. Quem sabe o eleitor tenha enxergado sabedoria no olhar da semi-analfabeta.

Tereza de Jesus de Moraes não está deslumbrada com sua eleição. Sabe de suas limitações pessoais e não alimenta ilusões. Apenas está decidida a usar o mandato como instrumento da melhoria de vida para as populações mais carentes de Campo Largo da Piedade, nome antigo do município – será ainda o oficial? – que ela faz questão de recitar.