Foto: Valquir Aureliano/O Estado

Tony Garcia: tentando se beneficiar da delação premiada.

?Se Roberto Bertholdo resolver falar, não vai sobrar ninguém da república brasileira?. A declaração de Antônio Celso Garcia, o Tony Garcia, cabeça do escândalo do Consórcio Garibaldi, sintetiza o tom da entrevista concedida por ele ontem aos jornalistas Fábio Campana, Gladimir Nascimento e Denise Mello, da Rádio Bandnews. Dizendo-se acuado por supostas ameaças de morte que estaria sofrendo do seu ex-advogado Roberto Bertholdo, que está preso, Garcia (beneficiado por um acordo de delação premiada) conseguiu espaço na mídia, para abrir o seu jogo. Ele também está na capa da edição desta semana da revista Veja.

Garcia afirmou na Bandnews que o esquema de corrupção montado por Bertholdo é maior que o de Marcos Valério. ?É uma espécie de bertholdoduto?, disse, fazendo uma brincadeira com o neologismo valerioduto, criado para nomear um dos maiores esquemas de propinas que o País já conheceu.

Segundo Tony Garcia, a liderança do PMDB, na Câmara, para José Borba custou R$ 8 milhões. ?Essa quantia foi distribuída entre os deputados da base governista?. Para confirmar a liderança, teriam sidos desembolsados mais R$ 6 milhões, arrecadados entre estatais como Itaipu, Furnas e Correios, dentre outras. ?O dinheiro não sairia dos caixas das empresas, mas de contribuições que diretores nomeados pelo PMDB exigiriam dos credores?. Outra fonte seriam empreiteiros e outros empresários interessados em negociar com as estatais.

Na entrevista, que durou uma hora e meia, Garcia afirmou que Bertholdo substituiu Waldomiro Diniz na operação do mensalão e que as propinas eram distribuídas aos deputados na sala ao lado do gabinete de José Borba.

No esquema de corrupção, ele admitiu ter depositado R$ 600 mil em uma das contas do advogado para que ele obtivesse uma liminar em habeas corpus pedindo o trancamento de uma ação em que Garcia aparece como responsável pelas fraudes do Consórcio Nacional Garibaldi. Garcia diz que parte do dinheiro teria sido entregue ao então ministro Vicente Leal, do Superior Tribunal de Justiça. ?Dias depois tive a decisão favorável no processo?, afirma. Segundo Garcia, Bertholdo teria, inclusive, assegurado o dia em que viria a sentença: dia 2 agosto.

Tony disse que os tentáculos de Bertholdo teriam atingido também a CPI do Banestado e quem não entrava no esquema sofria as conseqüências. O empresário do ramo de bingos ?Nego? Scarpim, por exemplo, teria se recusado a pagar R$ 300 mil ?e foi massacrado pelos deputados?. No dia anterior, Bertholdo teria apresentado as 16 perguntas que o deputado Íris Simões faria a ele e a comprovação veio em seguida.

Por fim, Garcia assegurou que Bertholdo se gaba de ter sido o intermediário na negociação do presidente Lula com o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, que teria culminado no acordo para que o apresentador só falasse bem do governo petista. ?Ele também era amigo pessoal de José Dirceu?, disse, referindo-se ao ex-ministro.

Nomes aos bois

À revista Veja, Garcia citou os nomes dos envolvidos no esquema do mensalão do PMDB. Ele assegurou que Bertholdo contava a ele que se encontrava com Delúbio Soares, Sílvio Pereira e Marcelo Sereno, em escritórios ou hotéis em São Paulo. ?Ele dizia que tratava de indicações políticas do PMDB para o governo e também pagava recursos para fazer acertos dentro do partido. Ele nunca andava com menos de 50 mil reais em dinheiro?. Ele disse que cada deputado – cerca de cinqüenta – tinha um preço e que nunca perguntou nomes, porém que era fácil saber quem eram os corruptos. ?Basta ver quem eram os deputados do PMDB que votavam com o governo?, disse Garcia à Veja.

Nas declarações, o ex-deputado compromete também o diretor-geral da Itaipu – vale lembrar que Bertholdo foi conselheiro da estatal. ?Ele dizia que o Samek era a ligação forte dele. Mas que o Samek tentava fazer os negócios sozinho ou com Paulo Bernardo (ministro do Planejamento, marido da diretora financeira da Itaipu, Gleisi Hoffmann). Tempos depois, o Samek passou a viajar com o Bertholdo nos jatos que ele locava para se deslocar de Foz do Iguaçu a Curitiba e Brasília?.

Sobre a substituição a Waldomiro Diniz na operação do mensalão, Garcia afirmou que Bertholdo operava, inclusive, as contas do PT no Exterior, tratando com doleiros em Luxemburgo.

Confissão de R$ 500 mil para Ratinho

Segundo Tony Garcia, ações de Bertholdo refletiram diretamente na campanha das últimas eleições para o Senado. O advogado teria orquestrado os ataques do PTC ao então candidato Paulo Pimentel (PMDB).

Ainda segundo Garcia, Bertholdo teria comprado o apoio do apresentador Carlos Massa, o Ratinho, para a mesma campanha, à qual Tony Garcia concorreu. ?Ele assegurou que Ratinho tinha uma estrutura grande de campanha em função do filho dele (o deputado Ratinho Júnior). Subíamos ao palanque juntos?, disse Garcia à Bandnews. Porém, apesar dos R$ 500 mil que teriam sido pagos a Ratinho, o apresentador teria sofrido pressões de Sílvio Santos para que cessasse o apoio a ele e passasse a apoiar Paulo Pimentel.

O advogado convocou uma reunião para pressionar o apresentador, que segundo Garcia foi gravada. Nela, o apresentador assegurou que continuaria apoiando Tony Garcia. Porém, o tratamento foi bem menos efusivo desde então. ?Antes, eu era tratado como superstar. Isso acabou?. (G.R)

Itaipu anuncia que vai processar revista Veja

Através da assessoria de imprensa, a Itaipu Binacional anunciou que vai acionar a Justiça contra a revista Veja devido à publicação dos trechos da entrevista com Tony Garcia que se referem ao presidente da estatal, o petista Jorge Samek.

Criticando duramente a publicação, a nota dá conta de que Samek não só vai exigir o direito de resposta como também vai colocar à disposição da Comissão de Ética Pública do governo federal seus sigilos bancário, fiscal e telefônico, para que se esclareça o absurdo das acusações levantadas pela revista. Mais que isso, Samek assegura que se coloca à disposição do Congresso Nacional para prestar quaisquer esclarecimentos visando salvaguardar a sua honra e a imagem da empresa.

A Itaipu e seu diretor-geral brasileiro afirmam que vão requerer ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal que investiguem o caso, especialmente para identificar o que chamam de ?verdadeiros interesses escusos e ?patrocinadores? por trás dessas matérias da Veja, que os atingem?. (G.R)