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Política

Sepultamento de José Richa reúne lideranças políticas

  • Por Elizabete Castro

O ex-governador José Richa foi sepultado ontem no Cemitério Parque Iguaçu, em Curitiba. Pai do vice-prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB), o ex-governador morreu na madrugada de ontem, no Hospital do Coração em São Paulo, em conseqüência de fibrose pulmonar, agravada por uma pneumonia. O corpo de José Richa chegou em Curitiba às 10h40 de ontem e foi velado no salão nobre do Palácio Iguaçu, por onde passaram lideranças políticas nacionais e locais.

O sepultamento foi acompanhado por diversas autoridades, como o governador Roberto Requião (PMDB) e o presidente nacional do PSDB, José Serra. Uma chuva de pétalas de rosas lançadas por um helicóptero encerrou a cerimônia fúnebre, que reuniu cerca de cinco mil pessoas.

Outros tucanos, como o ex-presidente do partido, José Aníbal, o líder do PSDB na Câmara, deputado Jutahy Magalhães Junior e o ex-ministro Pimenta da Veiga, também vieram a Curitiba. O presidente do PSDB, José Serra, chegou pouco antes da missa de corpo presente, às 16h, celebrada pelo capelão do palácio e amigo da juventude de José Richa, padre Gustavo.

Serra lembrou do amigo e coordenador da sua campanha como candidato à presidência. “É uma perda imensa para o Estado, para o país e também pessoal. Sempre trocamos idéias, ouvi conselhos. José Richa foi um grande exemplo para todos”, afirmou. Serra definiu o ex-governador e um dos fundadores do PSDB como uma pessoa otimista e tolerante. “Mesmo nos momentos de atividade política mais intensa, Richa sempre foi uma pessoa de convivência agradável. Grande orador, homem e político responsável, sempre foi generoso no trato com as pessoas, nunca demonstrou ressentimento mesmo por quem foi desleal com ele.”

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que está na Suíça, ligou para o vice-prefeito Beto Richa para dar os pêsames. O ex-presidente citou a participação de Richa em defesa da democracia e na formação do PSDB.

O governador de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira (PMDB), cancelou sua agenda para participar do enterro de José Richa, em Curitiba. “Ele foi um dos melhores brasileiros que conheci. Tinha um espírito público extraordinário, era um patriota”, ressaltou. Luiz Henrique também fez questão de lembrar que a vida de Richa foi marcada pelo bom senso, credibilidade e equilíbrio.

Fundador do PSDB, o ex-presidente da Itaipu Internacional, Euclides Scalco, aguardou no aeroporto até a chegada do corpo de José Richa, seguindo depois em direção ao Palácio Iguaçu. “O Paraná vai sentir saudade de José Richa, um político com espírito público e dignidade pessoal marcantes”, afirmou Scalco.

Nota oficial

O diretório nacional do partido divulgou nota destacando a atuação de Richa na vida política do País. “Um dos principais fundadores do partido, Richa encarnou os mais caros ideais do PSDB, marcando sua carreira política pela coerência, honradez e respeito aos valores democráticos” ressalta.

Requião decreta luto oficial por três dias

O governador Roberto Requião(PMDB)lamentou ontem a morte do ex-governador José Richa que descreveu como “um dos maiores governadores do Paraná de todos os tempos”. Requião decretou luto oficial de três dias. Ele disse que a eleição de Richa para o governo em 1982 representou um divisor de águas na política do Paraná. “Primeiro governador eleito depois do restabelecimento das eleições diretas para os governos estaduais, José Richa mudou o Paraná. A sua eleição representa um corte na política paranaense. José Richa não fazia parte dos grupos que vinham se revezando no governo do Estado há tantas décadas. E essa renovação abre para o Paraná um novo tempo”, assinalou.

Em nota oficial, divulgada pelo Palácio Iguaçu, Requião citou que José Richa colocou o governo do Estado a serviço dos paranaenses e promoveu uma mudança profunda na administração pública. “Todo o seu programa de governo, todas as suas ações iniciativas tiveram sempre como alvo os interesses da maioria. Ele promove uma mudança profunda nas prioridades governamentais. Democratiza a administração pública, aproxima o governo da população, torna os serviços públicos acessíveis a todos”, disse o governador.

Requião citou que Richa fez um governo de “grandes obras” que mudaram a feição do Estado. O governador mencionou os programas ” Clic Rural” e “Paraná Rural”.

Vida dedicada à atividade política

Nascido em 1934 em São Fidélis, cidade do interior do Rio de Janeiro, José Richa veio para o Paraná com os pais, libaneses, quando tinha apenas cinco anos. Estudou no Colégio Cristo Rei, em Jacarezinho, estabelecimento dirigido por padres alemâes e famoso pelo rigor disciplinar.

Veio para Curitiba,para cursar o Científico (2.º grau), no Colégio Estadual do Paraná. Passou no vestibular de Odontologia, curso que concluiu morando na Casa do Estudante Universitário – CEU – e trabalhando como repórter do jornal Diário do Paraná. Como universitário, integrou o movimento estudantil do PDC, aqui liderado pelo então prefeito de Curitiba, Ney Braga.

Participou da campanha que elegeu Ney ao Palácio Iguaçu. O nariz quebrado que o marcou para o resto da vida foi fruto de um acidente de carro que sofreu durante aquela campanha, quando capotou um jipe no Norte do Paraná.

Foi oficial de gabinete de Ney, ao lado de Norton Macedo Correia, Gabriel Neiva de Lima, Edmar Cúnico, Élcio Borell du Vernay e Francisco Scorcim. Rompeu com o ex-governador no episódio da indicação de Paulo Pimentel como candidato a governador. Richa apoiava Affonso Alves de Camargo Netto.

Carreira política

Formou-se em Odontologia em 1959, pela UFPR, mas não chegou a exercer a profissão. O primeiro teste nas urnas deu-se em 1962, quando se elegeu deputado federal. Em 1966, já casado com dona Arlete e radicado em Londrina, reelegeu-se. Em 1970 disputou uma vaga ao Senado, sem êxito.

Não ficou muito tempo sem mandato. Em 1972 elegeu-se prefeito de Londrina pelo MDB e começou a consolidar-se como uma das principais lideranças do partido no Estado. De espírito conciliador, atuava com grande habilidade nos bastidores, aparando arestas e costurando alianças. Voltou a disputar o Senado em 1978, numa das sublegendas do MDB, e garantiu uma cadeira com a ajuda dos votos obtidos pelo correligionário Enéas Faria.

Estava pavimentado o caminho que o levaria ao Palácio Iguaçu em 1982, pelo PMDB e num confronto com seu antigo padrinho político, o ex-governador Ney Braga. A dobradinha José Richa-Alvaro Dias disputou o governo e o Senado, respectivamente, vencendo Saul Raiz, que postulava a sucessão de Ney Braga, e o próprio Ney, que concorria ao Senado pelo extinto PDS.

Teve intensa participação na campanha das Diretas-Já, ao lado de Franco Montoro, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso e Lula.

Disciplina

Os companheiros citam um episódio para exemplificar seu espírito democrático e seu senso de disciplina partidária. Em 1988, apoiava a pré-candidatura do ex-deputado Amadeu Geara contra a de Roberto Requião, na época deputado estadual, à prefeitura de Curitiba. O grupo de Requião saiu vitorioso e Richa não vacilou em arregaçar as mangas e mergulhar de cabeça em sua campanha. Levantava de madrugada para ir aos principais terminais de ônibus da cidade pedir votos para o companheiro de partido.

Seu empenho foi uma arma poderosa para reverter o quadro da disputa, que começou com o franco favoritismo de Jaime Lerner.

Richa voltou ao Senado em 1986, onde cumpriu o mandato de oito anos, o último de sua carreira. Em 1990 tentou mais uma vez o Palácio Iguaçu, desta feita pelo PSDB, partido que ajudou a fundar junto com Montoro, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e Euclides Scalco. Enfrentou Roberto Requião, pelo PMDB, e José Carlos Martinez, pelo PRN de Fernando Collor de Mello. Não chegou ao segundo turno.

Nos últimos anos de Senado, envolveu-se de corpo e alma na campanha parlamentarista. Acreditava que esse era o único caminho para assegurar uma efetiva estabilidade política. Decepcionado com a derrota da proposta em plebiscito, não quis mais disputar cargos públicos. Continuava, porém. atuando de forma influente dentro do PSDB, com papel de destaque na campanha e no governo do amigo Fernando Henrique Cardoso, mas sempre nos bastidores.

Nos últimos anos dedicou-se a atividade privada, como conselheiro de várias empresas, dividindo um escritório com os três filhos, José, Beto e Adriano. Sua última participação em campanha foi para apoiar o filho Beto na disputa pelo governo do Estado, no ano passado.

Líderes políticos lamentam perda

Aaliados pontuais de Richa, como o ex-governador Jaime Lerner (PSB), e o prefeito de Curitiba, Cássio Taniguchi (PFL) e outros, permanentes, como o presidente da Assembléia Legislativa, Hermas Brandão, prestaram homenagem a Richa.

Em nota oficial, Lerner ressaltou sua coerência política “José Richa teve uma das mais belas carreiras políticas do Paraná e do Brasil e se notabilizou pelo respeito com que se conduziu na vida pública. Foi um político completo, com excelentes atuações no executivo e no legislativo, e uma impressionante capacidade de articulação. José Richa foi um lutador incansável das causas do Paraná e um administrador público de visão solidária e extremamente generosa para com a população”, declarou Lerner.

O presidente da Assembléia Legislativa disse que o ex-governador foi um conciliador que conseguia “unir pensamentos distintos em favor de causas coletivas”. A Assembléia Legislativa também decretou luto oficial por três dias e suspendeu suas atividades internas na tarde de ontem.

Na nota oficial divulgada pela Mesa Executiva, Richa é descrito como líder político de uma geração. “Ele fez da luta pela democraia uma bandeira permanente. De reconhecida ponderação e senso de justiça, José Richa trilhou com coerência o caminho político que o levou da militância estudantil até a posição de homem indispensável na articulação dos temas nacionais.”

O presidente da Copel, ex-governador Paulo Pimentel (PMDB) ressaltou as qualidades de Richa como político dedicado e coerente: “Tivémos nossas divergências, mas sempre admirei sua dedicação à politica e ao Paraná. Fluminense, ele aqui chegou criança, adotou o Paraná como sua terra, constituiu família e dedicou sua atividade inteiramente à política, fosse como prefeito, deputado, senador ou governador. Sem dúvida o Estado o perde prematuramente. Estou certo de que ele ainda poderia prestar importantes serviços aos paranaenses.”

O prefeito de Curitiba disse que o ex-governador era respeitado por todas as correntes políticas do Estado. “A morte do ex-governador entristece a todos nós, paranaenses e brasileiros que nas últimas décadas tivemos nele uma referência política sólida, uma grande figura humana e um exemplo inquestionável de luta pela democracia”, disse o prefeito, na nota oficial divulgada pela Prefeitura.

Habilidade de conciliador

Companheiro do PMDB e do PSDB, o ex-ministro Deni Schwartz lamentou a morte de Richa, com quem mantinha também fortes laços de amizade: “Richa desempenhou um papel importante no processo de transição democrática, quando saímos da ditadura militar para as eleições diretas. Isso porque era um homem verdadeiramente democrático, que sabia ouvir e respeitar o desejo da maioria. Sua firmeza e ética o tornaram respeitado pelos companheiros e até pelos adversários, alguém a ser ouvido, mesmo quando já não participava da vida pública, porque tinha posições sensatas, coerentes e dirigidas ao bem coletivo”.

Dirigentes e lideranças de vários partidos expressaram pesar pela morte do ex-governador José Richa. Os diretórios estaduais do PT, PPS e PL divulgaram notas oficiais frisando a importância de Richa na política paranaense. A direção do PT do Paraná classificou o ex-governador como um dos mais atuantes políticos das últimas décadas.

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