O ministro da Agricultura, Wagner Rossi, afirmou hoje que o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), pediu que o irmão, Oscar Jucá Neto, permanecesse na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mesmo depois de ter feito um pagamento irregular de R$ 8 milhões. Rossi prestou hoje depoimento na Comissão de Agricultura da Câmara.

De acordo com o ministro, quando se tomou conhecimento da ação de Oscar Jucá Neto ordenando um pagamento irregular, dez dias após assumir o cargo de diretor financeiro da Conab, o líder do governo no Senado lhe pediu para tentar manter o irmão na companhia, pelo menos como assessor, cargo que havia ocupado antes. Rossi disse que chegou a concordar com o senador e que levantou esta possibilidade na primeira conversa com Oscar Jucá Neto. Segundo o ministro, porém, a evolução do caso tornou insustentável a manutenção do irmão de Romero Jucá na Conab.

“No início, quando pensávamos que poderia ter acontecido essa falha dele por um equívoco, o senador Jucá, com a maior deferência em relação a mim, pediu que, se tivesse condições, e se ele (Oscar) não fosse adequado à diretoria, pudesse retorná-lo a um emprego de assessoria. Eu disse, só na primeira reunião, que ia tentar a possibilidade dele voltar a ser assessor. Mas quando os dados completos chegaram a nós, não teve como”, disse Rossi.

O ministro negou que tenha oferecido vantagens a Oscar Jucá Neto para que ele não fizesse denúncias. “Todas as outras afirmações dele foram aleivosas, foram mentirosas”, afirmou. Rossi disse ter elementos para processar o irmã de Jucá, mas disse ainda não ter se decidido sobre isso. “Tenho todos os elementos para poder processá-lo, mas a inconstância dele me dá menos raiva e mais um sentimento de que a punição está bem, mas vou avaliar”, afirmou.

Oposição light

O depoimento, que já dura duas horas, corre em clima de tranquilidade. Mesmo parlamentares da oposição têm poupado Rossi e centrado fogo na atuação de Oscar Jucá Neto. Como a bancada ruralista é favorável a Rossi, deputados de PSDB, DEM e PPS têm feito uma abordagem suave sobre o tema.

O líder do DEM, deputado ACM Neto (BA), por exemplo, criticou apenas a indicação de Oscar Jucá Neto e tentou colocar a culpa na presidente Dilma Rousseff por ter aceitado nomear o irmão do líder do governo. “A responsabilidade é dela. Ela nomeou seus ministros, deu posse, autorizou a nomeação de todos os diretores. O governo é dela, a responsabilidade é dela. É a lógica do PT de governar. Esse governo já está marcado pela corrupção”, criticou. ACM Neto defendeu a abertura de uma CPI para investigar “todas as denúncias de corrupção” no governo.

O tom dócil da oposição em relação a Rossi vem sendo comemorado pelos aliados. O líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), destacou que a própria oposição tem isentado Rossi de qualquer culpa no caso. O líder do PT, deputado Paulo Teixeira (SP), preferiu fazer ataques a outros partidos e lembrou que a origem do DEM é de uma dissidência da Arena, partido que deu sustentação à ditadura militar. Curiosamente, foi o próprio Rossi quem defendeu o partido da oposição, dizendo que o DEM é aliado em questões ligadas à agricultura.

Extinção

Rossi ainda manifestou discordância com a opinião do presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), de que a Conab deveria ser extinta. Rossi, que foi presidente da estatal antes de chegar ao ministério, defendeu o trabalho da companhia. “Não concordo com palavras do meu presidente, embora tenha apreço por ele”, disse Rossi, que é filiado ao PMDB. O ministro afirmou que a Conab “presta serviços admiráveis”, elogiou o trabalho dos 4 mil servidores da estatal e manifestou apoio à diretoria da empresa.

Ele destacou que, além de compra de produtos quando o preço de mercado está abaixo do chamado preço mínimo, a companhia trabalha com instrumentos para interferir no mercado, vendendo produtos quando os valores estiverem altos. Rossi destacou ainda que a companhia atua também na compra de produtos provenientes da agricultura familiar.