Zezé di Camargo e Luciano correram o País realizando showmícios para o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar do rótulo “sertanejo”, a dupla tinha (e tem) o poder de gerar empatia nas mais diversas classes sociais. Com eles no palanque, insinuava-se um governo de “centrão”, uma grande conciliação nacional, sem sustos ou ousadias polifônicas. Não à toa, saía de cena o sapo barbudo e entrava o Lulinha Paz e Amor. “É o amor/ Que mexe com minha cabeça/ E me deixa assim/Que faz eu pensar em você/E esquecer de mim/Que faz eu esquecer/ Que a vida é feita pra viver…”

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Mesmo a escolha de um “medalhão” para o Ministério da Cultura seguia o plano original de um projeto agregador. Como artista, Gilberto Gil professava (professa) o Tropicalismo, movimento que instituiu a mistura de estilos e formas como principal virtude – assim como foi tropicalista o que um dia conhecemos como base aliada. Se a Tropicália misturava rock, música brega, forró e outros que tais, o governo petista ia de PL, PTB, PMDB, PP e quase o baile todo. Antropofagia pura.

A meta conciliadora sofreu seu primeiro revés quando o Ministério da Saúde chamou a cantora Kelly Key para estrelar uma campanha de prevenção à aids. Com o hit Baba Baby, o medo de um PT subversivo agitava-se nas profundezas de um eleitor ressabiado. Com o advento dos “comentaristas de internet” (fenômeno que cresceu nos 13 anos de governo petista), a escolha de Kelly Key foi tratada como “apologia à pedofilia” ou “coisa de comunista”.

Na seara musical, é preciso destacar o funk. O movimento se beneficiou das principais bandeiras petistas, como o aumento do crédito, do poder de consumo e da criação de uma nova classe média. O País entrou no batidão da música desbocada, sensual, sexual e consumista. No limite, traduziu-se como “funk ostentação” – o funk das correntes de ouro, dos carrões e do Plaque de 100 (MC Guime).

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Foi esse gênero musical que serviu como trilha sonora para os chamados “rolezinhos”, que consistiam na tomada de espaços públicos ou privados pela garotada da periferia. Na televisão, o programa Esquenta, apresentado por Regina Casé, foi o que melhor captou esse momento. Vendia-se a ideia de que, finalmente, o pobre havia desembarcado no paraíso.

Tem quem considere o funk machista, mas foi justamente dele que nasceram os gritos feministas do governo Dilma Rousseff. Difícil pensar em algo mais empoderado do que Anitta cantando “Prepara, que agora é a hora do show das poderosas…” Ou o hino do feminismo funk, Beijinho no Ombro, cantado por Valesca Popozuda (“Desejo a todas inimigas vida longa…”).

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Os anos petistas também foram da música festeira e aeróbica. Ivete Sangalo, Zeca Pagodinho e Michel Teló (Ai Se Eu Te Pego foi a Garota de Ipanema desse período). Assim, sobrou para o rock fazer oposição. Nomes como Lobão e Roger (Ultraje a Rigor) são mais lembrados hoje como críticos do PT do que como músicos. A defesa roqueira do governo ficou a cargo de Tico Santa Cruz.

O cineasta preferido do período foi Fernando Meirelles. Embora Cidade de Deus tenha estreado no último ano do governo FHC, o “Dadinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno, porra” ecoaria por todo o governo Lula. Meirelles também foi o escolhido para ser o diretor da abertura da Olimpíada. Apesar do prestígio, o acontecimento cinematográfico organicamente ligado ao período é Tropa de Elite, do diretor José Padilha. Se por um lado Capitão Nascimento foi o catalisador das nossas frustrações e nosso desafogo contra a impunidade, por outro escancarou nossa face mais conservadora. Com o carismático capitão, aplaudimos cenas de tortura (saco plástico na cabeça) e consideramos os direitos humanos um obstáculo à obtenção da justiça. Wagner Moura será o ator mais lembrado desse período.

Web

Inegável que a internet foi a forma de comunicação que mais avançou nos últimos 13 anos. Com ela, novos nomes surgiram no cenário midiático e cultural. Kéfera, Felipe Neto, Jout, Jout, Chris Figueiredo e outros invadiram nossos celulares. Quem antes era espectador e consumidor de cultura virou também produtor de conteúdo cultural. A geração dos youtubers (filhos legítimos da era petista) não demorou a invadir o mercado publicitário e até editorial (Kéfera hoje escreve best-sellers).

O mesmo movimento favoreceu o sucesso dos reality shows. Apesar de o Big Brother Brasil ter começado ainda no governo FHC, foi no período petista que o programa ganhou musculatura e formou uma multidão de subcelebridades. A fama ao alcance do cidadão comum é um legado inequívoco dos últimos 13 anos. No mesmo espírito “faça você mesmo”, ganharam importância os realities de culinária – destaque para o Master Chef e suas derivações.

A internet também serviu de trampolim a uma turma que proliferou com voracidade nos últimos anos: os artistas stand-up comedy. Feito Gremlins, eles se multiplicaram e ocuparam qualquer espaço razoavelmente habitável. Falar, ser engraçado e tentar ser engraçado era a missão da maioria deles. Uma adaptação da famosa frase de Millôr Fernandes se encaixaria bem aqui: “Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”. Troque jornalismo por humor e tenha escancarado o grande nó do setor nos últimos anos. Não por acaso muitos humoristas saíram deste governo com a pecha de direitistas. Destacaram-se na arte de fazer rir Marcelo Adnet, Rafinha Bastos, o Porta dos Fundos, o Sensacionalista e programas como Pânico e CQC. A informalidade parece ter virado regra na televisão. O apresentador Tiago Leifert foi a pedra fundamental desse movimento.

A novela que marcou o período foi Avenida Brasil, que entrou para a história da teledramaturgia ao escancarar nosso relativismo ético. O “oi, oi, Ô!” da abertura não será esquecido tão cedo – bem como a performance de Adriana Esteves (como Carminha) e José de Abreu (que também se dedicou aguerridamente à defesa do PT). Ainda sobre novelas, vale lembrar do ator Alexandre Nero. Sua capacidade em interpretar personagens complexos fez dele um retrato reconhecível da realidade do País.

Mas foi-se o amor. Nas últimas eleições, Zezé di Camargo apoiou Aécio Neves…

E agora o PT vai tentar se refazer ouvindo With a Little Help From My Friends.