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Rede bolsonarista ‘jacobina’ promove linchamento virtual até de aliados

  • Por Estadão Conteúdo

A repórter do jornal O Estado de S. Paulo Constança Rezende tornou-se alvo no domingo passado de um violento ataque digital. Quando se preparava para sair de casa e almoçar com a família, Constança foi informada por uma de suas fontes via WhatsApp de que um post publicado pelo canal Terça Livre, que reúne militantes bolsonaristas e pupilos do escritor e pensador Olavo de Carvalho, estava provocando uma forte reação contra ela nas redes sociais. A razão: uma suposta tentativa de “arruinar” o presidente Jair Bolsonaro com as reportagens sobre o Caso Queiroz. Constança se dedica a essa cobertura desde o princípio.

A partir da publicação do Terça Livre, com base em declarações distorcidas de Constança divulgadas por um blogueiro belgo-marroquino num site francês, a vida da jornalista virou um tormento. Ela foi xingada, ameaçada e tornou-se tema de memes nas redes. Páginas falsas dela foram criadas na internet. Pior: a certa altura, o próprio presidente compartilhou o post do Terça Livre em suas redes sociais, amplificando os ataques. O Estadão, que logo publicou uma reportagem sobre o caso em seu site, mostrando que as declarações da repórter haviam sido deturpadas, também acabou se transformando em alvo das milícias virtuais, que “subiram” a hashtag #EstadaoMentiu no Twitter, para tentar desqualificar o jornal.

O caso de Constança revela, em toda a sua extensão, o funcionamento da máquina de assassinato de reputação operada por grupos bolsonaristas e olavistas, que formam as correntes mais radicais e dogmáticas da chamada “nova direita” do País. Em razão dos ataques virtuais desferidos pela turma, várias vítimas acabam por restringir o acesso a seus perfis e silenciar sobre o tema que deu origem às agressões. Algumas pessoas simplesmente apagam suas páginas, aterrorizadas pela agressividade dos comentários.

Hegemonia

Nesta reportagem especial, baseada em conversas com integrantes e ex-integrantes dessa engrenagem, o Estadão mostra como ela funciona, quem são seus principais líderes e apoiadores e quais são seus tentáculos nos gabinetes palacianos e parlamentares. Conta, também, os casos de outras vítimas das milícias virtuais bolsonaristas e olavistas. Além de jornalistas, a lista inclui personalidades e influenciadores da própria direita e integrantes do governo, como o vice-presidente Hamilton Mourão, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, e o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, indicado pelo próprio Olavo de Carvalho.

O ex-secretário-geral da Presidência da República Gustavo Bebianno, que deixou o cargo em meados de fevereiro, foi chamado de “mentiroso” nas redes por Carlos Bolsonaro, um dos filhos de Bolsonaro, cujo post foi compartilhado pelo pai, por afirmar que havia conversado três vezes com o presidente sobre o uso de “laranjas” nas eleições por candidatos do PSL.

Na campanha eleitoral, a turba já havia se levantado contra qualquer um que pudesse colocar em risco a hegemonia de Bolsonaro junto ao eleitorado de centro-direita. O ex-presidenciável João Amoêdo, do partido Novo; o atual governador de São Paulo, João Doria (PSDB); o empresário Flávio Rocha, pré-candidato à Presidência pelo PRB; e até a garotada do MBL foram alvos de ataques torpes da máquina de difamação bolsonarista e olavista.

‘Jacobinos’

Como cruzados em luta para conquistar Jerusalém, os bolsominions e os olavetes, como eles são mais conhecidos fora de seus mundinhos, insurgem-se contra os adversários de Bolsonaro e Olavo de Carvalho e contra aliados que ousam discordar dos dois, ainda que de forma pontual. Não por acaso, receberam a alcunha de “jacobinos”, em referência ao movimento surgido na Revolução Francesa, em 1789, que defendia o extermínio da aristocracia e se tornou conhecido por impor o terror no país.

No Brasil, nos tempos do PT, também havia uma máquina implacável de destruição de reputação de adversários, em especial de jornalistas. A diferença é que, naquela época, os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e seus parentes procuravam não se envolver diretamente, ao menos em público, na “guerra suja”. Além disso, a tropa de choque petista na internet recebia fartos recursos oficiais, para defender o governo e o partido e atacar os seus críticos.

Agora, o quadro mudou. Bolsonaro, seus filhos e alguns assessores palacianos e parlamentares envolvem-se diretamente nos ataques. E, por ora, de acordo com as informações disponíveis, sites e páginas como o Terça Livre, Isentões e Senso Incomum, que agem como se estivessem numa “guerra santa” contra infiéis, não estão recebendo recursos públicos para financiar suas atividades.

Na linha de frente dos ataques aos adversários e críticos de Bolsonaro e de Olavo figuram dois filhos do presidente – o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), responsável pela bem-sucedida campanha do pai nas redes e ainda hoje o principal administrador de suas páginas e perfis pessoais, e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o mais ideológico da família e o mais ligado a Olavo. Ao lado deles, instalados no Palácio do Planalto, destacam-se o assessor internacional da Presidência, Filipe G. Martins, e os assessores presidenciais José Matheus Sales Gomes – criador dos sites Bolsonaro Zuero e Bolsonaro Opressor 2.0 na campanha e considerado o “gênio” das redes do presidente – , e Tercio Arnaud Tomaz, ambos ex-funcionários do gabinete de Carlos, na Câmara Municipal do Rio.

Desgaste

Aparentemente, Carlos é o único que tem a senha para operar as páginas e perfis pessoais de Bolsonaro, além do próprio presidente. Na semana passada, ele afirmou numa rara entrevista (ao canal da jornalista Leda Nagle no YouTube) que, às vezes, sente-se “culpado” pelo conteúdo que publica na internet e leva um “puxão de orelha” do pai. Não se sabe, porém, se ele disse isso para tentar isentar Bolsonaro de responsabilidade pelas controvertidas publicações feitas em seu nome ou para exibir sua força na gestão do conteúdo nas páginas do presidente.

Os analistas que conhecem de perto o grupo mais próximo de Bolsonaro afirmam que Filipe Martins, um pupilo fervoroso de Olavo que foi introduzido no círculo bolsonarista pelas mãos de Eduardo, é quem está por trás de muitos ataques aos adversários e críticos do “professor” e do presidente. Eles dizem reconhecer o inconfundível estilo “jacobino” de Martins em vários dos ataques desfraldados por Olavo nos últimos tempos.

Quem conhece bem a forma de atuação do grupo afirma também que Olavo está sendo “brifado” em vários de seus posts por Martins e outros olavetes que ganharam cargos oficiais no atual governo e usado por eles para desferir ataques em todas as direções. Assim, Olavo dá a sua contribuição para preservar seus discípulos do desgaste inevitável que teriam se fizessem, eles mesmos, as publicações mais agressivas.

O caso de Mourão – “detonado” diversas vezes por Olavo, que o chamou de “palpiteiro” e afirmou que o vice é “uma vergonha para as Forças Armadas”, por causa de suas posições em defesa da opção das mulheres pelo aborto, contra a relativização da posse de armas e por suas críticas contra a política externa – é emblemático. Segundo o site O Antagonista, Mourão identificou as digitais de Martins, que conversa com frequência com o escritor, nos ataques desferidos contra ele.

Comando central

O diplomata Paulo Roberto de Almeida, exonerado da presidência do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri) no início de março e outro alvo dos “petardos” de Olavo, também atribuiu a Martins o seu afastamento do cargo. “Ele é um desses olavistas fanáticos, que tem a verdadeira fé”, disse em recente entrevista ao Estadão.

Muitas vezes, como no caso de Almeida, Mourão e Constança, os ataques virtuais parecem seguir uma estratégia bem elaborada e as orientações de um comando central, com o apoio de influenciadores como Allan dos Santos, do Terça Livre, os youtubers Nando Moura e Bernardo Küster e o empresário Leandro Ruschel, e de propagadores com milhares de seguidores nas redes, como Bruna Luiza Becker, ex-namorada de Martins que se tornou assessora de Vélez Rodríguez, a advogada Cláudia Wild e o perfil do Twitter Tonho Drinks.

De acordo com especialistas em redes sociais, os ataques digitais têm o apoio de robôs, que funcionam como uma espécie de faísca para incendiar a massa. No WhatsApp, por exemplo, onde os grupos podem ter no máximo 250 pessoas, costuma haver sempre dois ou três perfis falsos, destinados a enviar de forma automática mensagens com ataques a fulano ou beltrano. Em seguida, elas são compartilhadas pelos demais integrantes dos grupos em suas próprias redes, provocando o “efeito manada”.

Mas, mesmo nesses casos, deve-se levar em conta que há uma adesão espontânea que torna difícil caracterizar os grupos bolsonaristas e olavistas como membros de uma rede 100% estruturada de comunicação virtual. Nas eleições de 2018, o PT até tentou implementar algo do gênero por baixo do pano, remunerando os participantes, mas a iniciativa acabou “vazando” e o partido teve de abortá-la, para abafar o caso e evitar punições pesadas da Justiça Eleitoral. Uma rede profissional de milícias virtuais, encarregada de destruir a reputação de opositores e críticos pontuais, também exigiria um caminhão de dinheiro, difícil de obter com o cerco ao caixa 2 eleitoral e à corrupção.

Críticos de Bolsonaro e Olavo são tratados como inimigos

Na mídia tradicional, alvo preferencial dos ataques do presidente Jair Bolsonaro, de seu “guru” Olavo de Carvalho e de seus apoiadores, inúmeros jornalistas já se tornaram objeto da ira dos “jacobinos”. Segundo um levantamento feito pelo jornalista Marlos Ápyus, ele próprio atacado pelas hordas bolsonaristas e olavistas, surgiram diversos perfis falsos ridicularizando profissionais como Andrea Sadi, do Grupo Globo, e Reinaldo Azevedo, da Rede TV e do UOL – um ex-queridinho dos “jacobinos”, por suas críticas contundentes ao PT, que depois rompeu com o que chama de “direita xucra”. A jornalista Miriam Leitão, também do Grupo Globo, virou vidraça depois de dizer na campanha que Bolsonaro representava um “risco à democracia”.

Até jornalistas mais identificados com a direita, como Felipe Moura Brasil, diretor de Jornalismo da rádio Jovem Pan e organizador do livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, com textos de Olavo, caiu em desgraça por criticar Bolsonaro, como acontecia nos antigos regimes da Cortina de Ferro, quando integrantes dos partidos comunistas criticavam seus líderes.

“Patrulha mentirosa”

Na semana passada, a rede bolsonarista e olavista disseminou a versão de que Moura Brasil tornara-se diretor da Pan por ter apoiado Gustavo Bebianno, ex-secretário-geral da Presidência, no episódio da sua queda. “A acusação contra mim é apenas um exemplo ilustrativo desta patrulha mentirosa que a militância petista também fazia”, escreveu Moura Brasil em sua coluna na última edição da revista digital Crusoe.

Fora da mídia, quem entra na mira dos grupos mais radicais ligados a Olavo e a Bolsonaro são intelectuais da própria direita que se arriscam a criticar os dois, ainda que em questões pontuais. Fazem parte da galeria os filósofos Francisco Razzo, autor dos livros Contra o aborto e A imaginação totalitária; Martim Vasques da Cunha, autor de Crise e utopia e A poeira da glória; e o economista Rodrigo Constantino, autor de Privatize já, Esquerda caviar e Contra a maré vermelha.

Razzo, chamado de “estudante universitário” por Olavo, entrou para o index do escritor ao afirmar certa vez que ele não estava entre os autores mais influentes em sua formação e era só mais um entre os vários nomes engajados na batalha para formação da direita no País. Martim Vasques, ex-aluno de Olavo, batizado por ele, com toda a sua “sutileza”, de Martim Vaca, foi defenestrado há tempos pelo ex-mestre. Voltou a ser atacado na semana passada, por causa de um artigo publicado no jornal Gazeta do Povo, intitulado O mínimo que você precisa saber sobre o pensamento de Olavo de Carvalho. No artigo, que levou Olavo a publicar meia dúzia de posts nas redes sobre o assunto, Vasques cometeu a “heresia” de criticar suas ideias em linguagem acadêmica, expondo suas inconsistências e contradições teóricas.

No caso de Constantino, chamado de “Coconstantino” por Olavo, os conflitos também não são de hoje e decorrem das críticas públicas feitas a Bolsonaro e ao escritor, numa época em que poucos “trombones” da direita se aventuravam a fazê-lo. Por sua ousadia, despertou a ira dos bolsominions e olavetes e ainda hoje paga um preço alto por isso. Na semana passada, chegou a ser chamado de “comunista” por um “jacobino” indignado com suas críticas ao “professor”.

“Sempre que critico o Olavo e o Bolsonaro sou alvo da patrulha que remete ao petismo mais indigesto”, disse o economista, provavelmente o primeiro a se referir ao escritor como Osho, o guru indiano que liderava o movimento Rajneesh. “Poucas vezes vi um modus operandi tão autoritário, de um grupo que funciona como uma seita e intimida os críticos como se fossem inimigos.”

Entre os integrantes do governo, nem o ministro Sérgio Moro, da Justiça e Segurança Pública, foi poupado dos ataques de Olavo e seus pupilos, por sua posição contrária à flexibilização do porte de arma e pela nomeação e posterior desnomeação da cientista política Ilona Szabó para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. O caso mais recente de ataques virtuais de Olavo e de olavetes a autoridades do primeiro escalão do governo envolveu o ministro Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação, indicado pelo próprio escritor, após a demissão de um grupo de olavetes do órgão. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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