O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa pode ser uma peça fundamental nas eleições deste ano. Bem colocado nas pesquisas e conhecido pelo combate à corrupção, tem sido visto pelos adversários como uma possível ameaça, que pode atrair votos de todos os lados.

Possível, porque ainda não bateu o martelo sobre a candidatura. “Não estou pessoalmente convencido”, afirmou em conversa com a imprensa semana passada. Ele filiou-se ao PSB no último dia da janela partidária, em 6 de abril, com toda a discrição. Não avisou jornalistas, nem fez um grande evento para a ocasião.

A entrada no PSB veio após quase um ano de conversa com o presidente do partido, Carlos Siqueira, e outros nomes da legenda, como o deputado Júlio Delgado (MG).

A primeira reunião com caciques do PSB ocorreu semana passada. E serviu como uma oportunidade para Barbosa se apresentar a muitos deles que só conheciam o advogado, personalidade jurídica, relator do mensalão.

A cúpula do PSB diz não ter pressa para que Barbosa se decida. O prazo de registro de candidaturas termina só em agosto. Sabem, contudo, que se deixarem conforme a vontade dele, a decisão pode sair perto da data limite. Por isso, o trabalho interno na legenda é para que o ex-ministro tome uma decisão até o fim de maio. Avalia-se que a indefinição prejudica, não apenas a formação de alianças, mas a arrecadação para a campanha.

Conheça fatores que influenciam na indecisão de Joaquim Barbosa:

1) Pessoal

Na primeira vez que apareceu publicamente após se filiar ao PSB, Joaquim Barbosa foi questionado sobre a opinião de sua família a respeito de sua candidatura. Respondeu: “Não é a favor”. Familiares de Barbosa procuram não se intrometer na decisão dele. Mas se preocupam com a saúde do ex-ministro.

Ele sofre de sacroileíte, uma inflamação na base da coluna, que se agravava durante os longos julgamentos no Supremo. Era comum ver que ele intercalava momentos em pé e sentado ao longo das sessões do STF. Aposentado desde 2014, com mais tempo para se dedicar à saúde, as dores praticamente diminuíram.

A privacidade também é cara a Barbosa. No auge do processo do mensalão, relatado por ele, olhos e câmeras estavam sempre atentos aos movimentos do então ministro, o que lhe incomodava visivelmente.

2) Personalidade

“Dono de personalidade forte”. É assim que a maioria das pessoas que já conviveram com Joaquim Barbosa o definem. Em seus 11 anos de passagem pelo STF, travou diversos embates com os demais ministros e também com jornalistas.

Demonstração também da sua personalidade, Barbosa ficou conhecido internamente no Supremo por não receber advogados. Não raro os ministros recebem os defensores, que costumam apresentar subsídios para as decisões dos magistrados.

Barbosa se justificava dizendo considerar esse tipo de prática de “conluio indecoroso”. Acostumado a dizer o que pensa, Barbosa, porém, acredita que pode ser uma alternativa para renovar a política.

3) Inexperiência política

Quando deixou o STF, em 2014, Joaquim Barbosa foi assediado por diversas siglas. Seu nome chegou até a entrar em algumas pesquisas de opinião, que o cogitavam como candidato naquela eleição. Conversou com a Rede, de Marina Silva. E até com alguns integrantes do PT, partido que mais saiu prejudicado do processo do mensalão.

Apesar disso, o ex-ministro nunca participou da política. Ao contrário, já se declarou avesso a questões político-partidárias, essenciais, por sua vez, a quem se elege presidente.

Esse é um dos receios de quem ainda não se convenceu por seu nome dentro do PSB. E o exemplo claro para tratar a questão como essencial é dado sem meias palavras: Dilma Rousseff, que sofreu um processo de impeachment em 2016.

4) Vida confortável

Após deixar o STF, Barbosa passou a ter uma vida tranquila, dedicada, no campo profissional, a seu escritório e a consultorias. Ele mora no Leblon, no Rio de Janeiro. Mas mantém um apartamento nos Jardins, em São Paulo e um escritório no Itaim, zona Sul da capital paulista, e no Lago Sul, em Brasília.

O que já era praticamente um hábito de Joaquim Barbosa quando ministro do STF, as visitas aos Estados Unidos se tornaram mais frequentes. Passeios, bares, restaurantes. Parte de atitudes, que entraram na vida do ex-ministro com a aposentadoria, podem não combinar com o cargo de presidente da República.

5) Resistência interna no PSB

A direção do PSB insiste na candidatura de Joaquim Barbosa. E não poderia ser diferente, já que ele apareceu com 10% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha. Após convencê-lo a se filiar, o partido, tido como de porte médio, não quer perder o potencial que o ex-ministro tem de alavancar a legenda. Contudo, sobram receios.

A ala nordestina do PSB, que inclusive é a mais expressiva, conheceu Barbosa pessoalmente na última semana. Embora polidos no encontro que ocorreu na sede do partido, em Brasília, correligionários temem a falta de familiaridade dele com a política.