Em nota oficial divulgada ontem, após uma reunião em Brasília, os sete governadores do PMDB e o presidente nacional da sigla, deputado Michel Temer, anunciaram que vão aplicar a decisão da convenção realizada em dezembro do ano passado, cancelando a filiação de todos os ministros e outros integrantes do partido que estiverem ocupando cargos no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A direção do partido e o grupo de governadores condenaram a atuação dos senadores José Sarney e Renan Calheiros, responsáveis pela negociação da ampliação do PMDB no governo. Respaldado pelos governadores, Temer informou que irá comunicar aos tribunais regionais eleitorais o afastamento dos filiados que insistirem em permanecer no governo. Até ontem, no primeiro escalão, eram dois os peemedebistas no governo (Romero Jucá na Previdência e Eunício Oliveira nas Comunicações). Agora já são três: senador Hélio Costa (Comunicações), deputado Saraiva Felipe (Saúde) e Silas Rondeau (Minas e Energia).
A nota, assinada pelo, governadores e o presidente do partido, censura Sarney e Calheiros: "Os senadores José Sarney e Renan Calheiros nunca estiveram autorizados a negociar cargos ou funções em nome do partido, motivo pelo qual censuramos essas tratativas", diz o comunicado.
O governador Roberto Requião participou da reunião junto com os governadores de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, do Distrito Federal, Joaquim Roriz, de Tocantins, Marcelo Miranda, do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, do Paraná, do Rio de Janeiro Rosinha Matheus e de Santa Catarina, Luiz Henrique. Também estiveram na reunião o senador Pedro Simon (RS), o presidente regional do partido em São Paulo Orestes Quércia e o secretário de governo do Rio Anthony Garotinho.
Tese aceita
Requião conseguiu incluir na nota subscrita pelos governadores a sua tese sobre as origens da crise política que atingiu em cheio o governo, após as declarações de Jefferson. "… A atual crise tem origem na incompatibilidade entre as propostas de campanha e as ações de governo, em especial à política econômica", afirma o documento.
Requião vem apresentando essa explicação para o fato de se opor à participação do partido no governo, embora se apresente como um aliado do presidente Lula, a quem apoiou e por quem foi apoiado em 2002. O governador paranaense segue na linha de crítica à orientação econômica do governo, que começou já no final do primeiro ano da administração de Lula com ataques contumazes ao ministro da Fazenda, Antônio Palocci.
Conforme o material distribuído pelas agências de notícias, os demais governadores deram outras justificativas para defender o afastamento do governo. A governadora do Rio Rosinha Matheus criticou a nomeação de mais membros do partido para ministérios. "Se eu não servi para ser parceiro, não posso servir para ser cúmplice e nós vamos continuar mantendo a nossa posição", disse a governadora.
Já o presidente do PMDB de São Paulo, Orestes Quércia, afirmou que, na última convenção nacional, o partido havia decidido não participar do governo Lula. "O partido tem que se esclarecer. Não é possível que fique essa dicotomia, essa coisa de desobediência à decisão do partido."
Diretório afasta Borba em Maringá
A executiva estadual do PMDB, reunida ontem em Curitiba, decidiu afastar o deputado federal José Borba do comando da reorganização do partido, em Maringá, onde foi decretada a dissolução do diretório municipal. Borba havia sido designado pelo diretório estadual para formar a nova executiva municipal do partido.
O presidente regional do PMDB, Dobrandino da Silva, disse que a renúncia de Borba à liderança da bancada na Câmara evitou que a executiva pedisse oficialmente a saída do deputado paranaense do cargo. A direção estadual, segundo Dobrandino, tinha redigido uma nota que seria encaminhada ao diretório nacional solicitando a destituição de Borba da liderança da bancada.
Dobrandino declarou que, a partir de agora, o PMDB do Paraná vai aguardar a conclusão das investigações sobre a participação de Borba no suposto esquema de pagamento de mesadas a deputados em troca de apoio ao governo, conforme as acusações do deputado Roberto Jefferson (PTB). "Vamos aguardar as investigações. Se forem comprovadas as denúncias, exigiremos da direção nacional uma posição em relação ao Borba", disse.
Na próxima semana, o PMDB vai decidir o nome do substituto de Borba na condução do processo de restauração do partido em Maringá. Um dos nomes citados foi o do deputado federal Odílio Balbinoti, mas por enquanto, é apenas uma hipótese.
O aumento da participação do PMDB no governo mereceu novas críticas do presidente estadual do partido, que prometeu enviar um protesto formal à direção nacional. "É a ala fisiológica do PMDB, que sobrevive à sombra do governo", atacou o dirigente estadual, ressaltando que esses vínculos tornam o PMDB responsável pelo que der errado no governo Lula. (Elizabete Castro)


