A análise da movimentação financeira das empresas ligadas ao empresário Jorge Atherino – apontado pela Polícia Federal (PF) como sócio do ex-governador Beto Richa (PSDB) – sugere que o grupo empresarial foi usado para ocultar dinheiro recebido como propina da Odebrecht. A PF identificou transações atípicas para o padrão do grupo de Atherino, como o aumento acentuado de depósitos em dinheiro e cheque, além de saídas de dinheiro para empresas do próprio conglomerado, e que batem com os R$ 3,5 milhões que a construtora teria repassado à campanha de reeleição de Richa, em 2014, via caixa 2.

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A análise consta da investigação que culminou na Operação Piloto – 53ª fase da Lava Jato –, que levou à prisão Atherino e Deonílson Roldo (ex-chefe de gabinete de Richa). O empresário já é réu em processo decorrente da Lava Jato, em que é apontado como quem recebia o dinheiro de propina da Odebrecht, que era pago em espécie.

Segundo a análise dos dados financeiros, no período entre o segundo semestre de 2014 e o primeiro semestre de 2015, as empresas de Atherino atingiram o “pico” de recebimentos via depósitos em dinheiro ou cheque. A PF chama a atenção para o fato de que o grupo empresarial ter recebido em transações dessas modalidades valores que somam R$ 3.426.818,27, “o qual é praticamente equivalente ao montante de R$ 3.500.000,00 registrado no SOE-ODEBRECHT [Sistema de Operações Estruturadas, o setor de propinas da construtora]”.

Segundo as planilhas da Odebrecht, os R$ 3,5 milhões teriam sido repassados em cinco pagamentos, feitos a partir de setembro de 2014 – justamente o período em que os depósitos em dinheiro ou cheque aumentaram. No setor de propinas da construtora, o beneficiário da propina estava identificado como “Piloto”, que ex-executivos da Odebrecht disseram se tratar de Richa. O montante teria sido entregue a “Greco”, codinome de Atherino.

Saídas

Jorge Atherino teve movimentação de propina descoberta em análise da contas de suas empresas. Foto: Reprodução/Facebook
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Outro ponto destacado pela PF é que a emissão de cheques de empresas do grupo Atherino para outras empresas ou pessoas físicas do próprio conglomerado aumentou drasticamente entre o segundo semestre de 2014 e primeiro semestre de 2015. A hipótese levantada pelos investigadores é de que, por meio dos depósitos em espécie ou cheque e dos cheques emitidos a empresas do proprio grupo, Atherino dissimulava a movimentação da propina.

“O montante emitido de cheques nesta modalidade entre a data de início dos pagamentos do SOE [setor de propinas da Odebrecht] (04/09/2014) até o final do respectivo período (31/12/2014) é de R$ 3.440.448,99, novamente aproximando-se do montante total registrado no SOE”, destacou a PF. Deste montante, mais de R$ 2,1 milhões diz respeito a cheques emitidos a beneficiários que não foram identificados.

Protagonistas

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Segundo a PF, três empresas de Atherino fora as “protagonistas” das transações destacadas nas investigações: a RF Participações, a Green Portugal e a TRTN Locações. Elas movimentaram o maior volume financeiro, tanto em depósitos recebidos em dinheiro ou cheques, quanto na emissão cheques a empresas do próprio grupo ou a pessoas físicas ligadas ao conglomerado empresarial. Entre as pessoas físicas identificadas, estão familiares de primeiro grau de Atherino.

Na análise do “comportamento das transações” das empresas, a PF observou que, “embora, a priori, não se trate de padrão ilícito ou irregular, tem-se um ambiente propício para a ocultação ou dissimulação da origem do numerário obtido ilicitamente, como seria o caso, por exemplo, de uma vantagem ilícita oferecida a agente público”.

R$ 361 milhões

A análise foi feita a partir da quebra do sigilo bancário das empresas de Atherino. No período avaliado, entre 2 de janeiro de 2014 a 8 de maio de 2018, as 35 empresas ou pessoas físicas ligadas ao grupo de Atherino movimentaram mais de R$ 361 milhões. Entre elas, está a Ocaporã Administradora de Bens, ligada ao ex-governador Beto Richa e investigada na Operação Rádio Patrulha – que apura um esquema de corrupção em um programa de manutenção de estradas rurais –, na qual o ex-governador é réu.

Propina da Odebrecht

Segundo as investigações, os R$ 3,5 milhões que a Odebrecht teria repassado à campanha de eleição de Richa seria propina paga em razão de a construtora ter sido beneficiada na licitação para a duplicação da rodovia PR-323. Nesta semana, a PF deflagrou uma nova fase da Lava Jato, diretamente relacionada a este esquema. Foram presas 18 pessoas, entre as quais o ex-secretário de Infraestrutura, Pepe Richa – irmão do ex-governador. Também teve a prisão decretada o primo de Richa, Luiz Abi Antoun.

Outro lado

A defesa de Atherino preferiu não se manifestar. Já assessoria de Richa emitiu nota em que disse que “o ex-governador nunca foi condescendente com desvios de qualquer natureza e é o maior interessado na investigação de quaisquer irregularidades. Beto Richa segue confiando na Justiça e tem a certeza que o devido processo legal provará sua inocência”.

A Gazeta do Povo tentou contato com as empresas RF Participações, Green Portugal e TRTN Locações. A informação passada à reportagem era de que os gerentes estavam em reunião e que os questionamentos deveriam ser encaminhados por e-mail, o que foi feito na tarde desta segunda-feira (1º).

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