Enquanto transcorrem as discussões e articulações sobre a participação do Paraná na equipe do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), um paranaense, Gilberto Carvalho, tem assento cativo no núcleo mais próximo do presidente eleito. Coordenador da agenda de Lula durante a campanha eleitoral, Gil, como é conhecido no partido, nasceu em Londrina, viveu muitos anos em Curitiba e está cotado para ser o próximo chefe de gabinete do presidente eleito, função que já está exercendo neste período de transição. Disse a O Estado, em entrevista pelo telefone, que não sabe se assumirá oficialmente o cargo e que já se considera devidamente recompensado por ter ajudado a concretizar o que chamou de “sonho de uma geração”.

Desde 93, quando assumiu a secretaria geral do diretório nacional do PT, Gilberto Carvalho, 51 anos e três filhos, tornou-se um dos homens de confiança de Lula. Mais do que um companheiro de partido, Carvalho é um amigo pessoal do presidente da República. Antes de passar a pertencer à cúpula do PT, Carvalho teve uma longa trajetória de militância e participação na construção do partido no Paraná, que presidiu na década de 80.

Filho do dono de um restaurante em Londrina, Gilberto Carvalho chegou a Curitiba na década de 70 para cursar Filosofia, na Universidade Federal do Paraná. Concluiu o curso e foi estudar Teologia, no Instituto Teológico de Curitiba. Morava no Seminário dos Palotinos, onde se encantou com a “Teologia da Libertação?, que estava nascendo. Automaticamente, envolveu-se com as pastorais sociais e fez uma opção radical, política e de vida. Gilberto Carvalho foi morar na favela da Vila São Paulo (que não existe mais) para entrar de fato na realidade com a qual trabalhava e sonhava transformar. “Foi uma opção mística para conviver com os pobres e oprimidos”, explicou.

Assim começou a organizar as comunidades de base na Vila São Paulo e foi trabalhar numa fábrica de plásticos, na condição de operário não qualificado. Também diz que mais uma vez, fez uma “opção mística”. Passou dez anos atuando como operário. Nesse período, trabalhou como soldador da extinta Refripar.

Ele foi um dos fundadores da Pastoral Operária no Paraná. Em 79, na primeira grande greve dos metalúrgicos, ajudou a criar a oposição sindical da categoria e, destino comum a muitos trabalhadores, acabou na chamada “lista negra” dos empresários da área. Desempregado, criou com um grupo de amigos a Serralheria e Toldos “ABC”, nome dado em homenagem aos companheiros da famosa região metalúrgica de São Paulo e onde Lula já era um líder dos trabalhadores. “Muitas das escadas metálicas do Shopping Mueller foram feitas por nós, na nossa cooperativa”, recorda.

Gil Carvalho começa então a participar ativamente do PT do Paraná e em 86, vai morar em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, para ser o coordenador nacional da Pastoral Operária.

Retorna ao Paraná, assume a presidência estadual do PT. Em 88, concorre a vice-prefeito na chapa encabeçada por Claus Germer à Prefeitura de Curitiba. Concorreu também a uma cadeira de deputado federal constituinte. Fez 25 mil votos, mas não foi eleito. Faltou legenda. Em 89, Lula o chamou para trabalhar no Instituto Cajamar, em São Paulo, uma escola de formação política criada em conjunto pelo PT e a CUT. À época, Gil era presidente estadual do PT e houve muita discussão se ele deveria ou não ir para São Paulo. Foi liberado e não voltou mais ao Paraná.

Entrou para a direção nacional do partido e ocupava até o início deste ano a secretaria de governo de Santo André. O assassinato do prefeito da cidade, Celso Daniel, perturbou a trajetória de Gilberto Carvalho. Já estava entrosado na campanha de Lula, quando teve que voltar a Santo André. Em abril, deste ano, voltou para São Paulo e organizou todo o roteiro de Lula durante a campanha.

O sonho de uma geração

P.

Como o senhor entrou na campanha de Lula?

R.

Eu era secretário de Governo do prefeito Celso Daniel, em Santo André. Quatro dias antes do assassinato dele, o Lula me telefonou e me convidou para trabalhar na campanha. Pedi licença da prefeitura e fui para São Paulo. Mas, aí, o Celso foi morto e eu tive que voltar para Santo André. Só retornei à campanha em maio para cuidar da agenda do Lula. Continuo fazendo isso até agora.

P

. E vai continuar fazendo depois da posse?

R.

Não sei. Já disse ao Lula que ele deve ter toda a liberdade de movimentos para compor sua equipe. Para mim, o importante é que participei de todo este processo. Essa foi a maior recompensa que todos da equipe tivemos – ter tido a honra e a alegria de eleger o Lula presidente. Daqui para a frente, iniciamos outra fase. Estou à disposição para ajudar no governo, mas não vejo nenhum problema se tiver que voltar para a Prefeitura. De qualquer forma, estarei feliz e participando do governo, sem necessariamente estar no governo.

P.

Para quem tem uma história pessoal que se confunde com a do PT, qual o significado da chegada do partido à Presidência da República?

R.

Por enquanto, ainda não temos muita noção do significado de fato deste processo. Mas eu penso que é a realização do sonho de uma geração. Um sonho que era considerado meio impossível, mas que foi concretizado. Quando penso nesta vitória, penso também nos muitos companheiros que ficaram pelo caminho e que contribuíram com isso, muitas vezes sacrificando seus projetos pessoais. Por isso, é importante dizer que esta vitória não começou nesta campanha. Ela começou lá atrás, no movimento de resistência à ditadura e na organização dos trabalhadores nos sindicatos.

P.

Como fazer para realizar as esperanças que os brasileiros depositaram no PT e nos seus projetos?

R.

Esse sonho do PT exige uma responsabilidade imensa da nossa parte. Por isso, nós e principalmente o Lula estamos preocupados com essa visão messiânica que surgiu no processo. Tenho acompanhado o Lula nestes dias e tenho visto o seu esforço para trabalhar esse componente, chamando as pessoas à realidade, no sentido de que ele, Lula, é apenas uma peça no conjunto de forças que precisamos colocar em ação para realizar as esperanças das pessoas. Temos muitas dores e lutas ainda pela frente para concretizar nosso sonho e realizar as esperanças de todos os brasileiros.

P.

Vocês têm a preocupação com o risco de que essas esperanças possam ser frustradas?

R

. O que há é uma preocupação em preservar essa esperança, tendo em vista que, nestes quatro anos de governo, vamos começar pela mudança da lógica deste País. Os resultados mais concretos para o trabalhador não serão de curtíssimo prazo, mas de médio e longo prazos. Entendemos que a mobilização da população será fundamental para manter essas esperanças e realizar nosso projeto de mudanças.

P.

E como impedir que essa esperança seja destruída até que os resultados concretos apareçam?

R.

A diferença deste governo em relação aos anteriores é que não há risco de traição do projeto apresentado aos brasileiros. Nós temos um compromisso com o povo que não nasceu na campanha eleitoral. Foi sendo construído e consolidado ao longo de todos estes mais de 20 anos de existência do PT. A biografia de todos aponta para esse compromisso, que é de vocação e está amarrado diretamente ao povo. Nós fazemos política para nutrir este compromisso. Eu faço política e vamos continuar fazendo para dar sequência a este sonho.