O comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, fez uma rara manifestação na qual buscou delimitar seu distanciamento da ala militar do governo Jair Bolsonaro.

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“Não queremos fazer parte da política, muito menos deixar ela entrar nos quartéis”, afirmou durante uma live do Instituto para a Reforma das Relações entre Estado e Empresa.

Ele respondia a um questionamento do ex-ministro da Defesa Raul Jungmann, presidente-executivo do braço de Defesa e Segurança do instituto, sobre o papel dos militares na política, tema que acompanha o governo Bolsonaro desde a campanha eleitoral.

Na gestão do capitão reformado do Exército, 9 dos 23 ministros são de origem fardada.

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Pujol, conhecido por ser um homem de poucas palavras, não criticou os colegas que estão no governo –a começar pelo seu chefe, o general Fernando Azevedo, ministro da Defesa.

Mas ressaltou que “se for para chamar [um militar para o governo], é decisão do Executivo”. Nem tampouco viu problemas nisso, citando que o Supremo Tribunal Federal requisita desde 2018 um general para assessorar seu presidente, cargo que foi ocupado por Azevedo na gestão Dias Toffoli.

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Mas é na segunda parte de sua formulação que o recado fica dado. Assim como disse à Folha de S.Paulo após a vitória de Bolsonaro em 2018 o antecessor de Pujol, Eduardo Villas Bôas, a Força teme a politização dos quarteis na esteira da militarização da política.

Esse movimento tornou-se uma preocupação no Alto Comando do Exército durante o período de maior radicalização de Bolsonaro na Presidência, entre abril e junho deste ano.

Enquanto o presidente frequentava manifestações golpistas pedindo o fechamento do Supremo e do Congresso, havia o temor de que o baixo oficialato se empolgasse com a retórica de Bolsonaro.

No topo da cadeia alimentar do setor, a Defesa chegou a endossar uma ameaça velada do general Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) ao Supremo.

Com o paroxismo da crise e a prisão do ex-assessor do clã presidencial Fabrício Queiroz no fim de junho, Bolsonaro acabou se retraindo e compondo com o centrão, o que abafou o risco de um impeachment ou outra ruptura.

Ato contínuo, a ala militar do governo se viu submersa parcialmente, só para frequentar o noticiário quando há escaramuças com os setores radicais do bolsonarismo no poder, como a briga entre o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) demonstrou.

De forma geral, porém, os fardados tendem a considerar que saíram do holofote. “Não nos metemos no que não nos diz respeito”, afirmou Pujol.

O próprio comandante do Exército foi tragado para a confusão quando, no começo de maio, Bolsonaro considerou trocá-lo pelo amigo Luiz Eduardo Ramos, general que comanda a Secretaria de Governo.

A discussão foi tornada pública pela Folha de S.Paulo, obrigando Ramos a negar veementemente a hipótese. Vez ou outra, o tema ressurge, embora a possibilidade seja considerada nula por oficiais da ativa.

A insatisfação de Bolsonaro com Pujol decorria da atitude do comandante em relação à pandemia do novo coronavírus, para a qual ele mobilizou o Exército em sua maior operação desde o envio de pracinhas para combater o nazismo na Segunda Guerra Mundial na Itália.

Pujol inclusive negou um aperto de mão, oferecendo o cotovelo a Bolsonaro, numa solenidade militar antes da discussão sobre a eventual troca de comando.

Na live, o comandante afirma que só se preocupa com assuntos militares, e que se alguém tem de falar de política, é o general Azevedo em reuniões de ministros.