O crescimento dos gastos permanentes no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez com que o mercado financeiro alimentasse reticências em relação à candidatura governista, aumentando o que analistas chamam de “risco Dilma”. Diferentemente da disputa de 2006, quando o mercado avalizou a reeleição petista, a corrida do ano que vem começa marcada com a incerteza sobre o cunho expansionista da candidata do PT e o chamado “risco Serra”, calcado no temor de que o tucano poderia alterar os rumos da política monetária, caso eleito.

O mercado começa a precificar o que chama de “risco da heterodoxia”, uma vez que os dois nomes dos principais partidos na corrida, PT e PSDB, detém uma visão mais à esquerda a respeito da condução da política econômica e do papel do Estado na economia. Admitem, no entanto, que, apesar do viés heterodoxo, serão mantidos os fundamentos da economia brasileira – o tripé formado por superávit primário, metas de inflação e taxa de câmbio flutuante.

A inquietação é com uma eventual terceira gestão petista que intensifique o crescimento dos gastos com pessoal, encargos sociais e benefícios, interferindo na capacidade de o País crescer no médio prazo – principalmente num cenário de queda de arrecadação. “O tema no Brasil continua sendo o fiscal”, afirmou Mauro Leos, analista-chefe de crédito da Moody’s para a América Latina. A agência de classificação de risco americana acabou de conceder grau de investimento ao País. Em seu relatório, Leos falou em “deterioração” das contas fiscais. “No curto prazo, há componentes também políticos. Em 2010 há eleições e em qualquer país os governos tendem a aumentar os gastos”, disse em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

De acordo o Tesouro, os gastos com pessoal e encargos sociais passaram de R$ 75,8 bilhões para R$ 130,8 bilhões entre 2003 e 2008. A previsão é de que em 2009 cheguem a R$ 153,8 bilhões. O mercado já aposta que o superávit primário de 2010 será de 2,5% do PIB – menor que a meta de 3,3%.

“A política fiscal do governo foi uma até 2004. A partir daí começou a mudar, quando a sugestão de se promover um ajuste de longo prazo foi chamado de ‘rudimentar’ pela Dilma, e Lula definiu que a política seria ‘desenvolvimentista'”, declarou o economista Alexandre Marinis, um dos maiores especialistas em contas públicas do País. Para Roberto Padovani, estrategista-chefe do WestLB, as contas públicas apresentam hoje “o pior resultado fiscal em dez anos”. “É uma combinação de aumento de gastos com queda brusca na receita. E a queda tem a ver com a crise”, afirmou.

Alexandre Schwartsman, economista-chefe do Banco Santander e ex-diretor do BC, diz haver “preocupação com o perfil dos gastos, que não estão concentrados em investimento”. “Todos os países gastam para reverter a crise, mas aumentam investimento e não contratação”, disse Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.

O mercado já embute o “risco político” no juro futuro, que sobe com a perspectiva de maior pressão inflacionária com mais gastos. Para críticos desse movimento, no entanto, a disseminação do medo é proporcional aos ganhos com as apostas de alta.

O viés estatizante do segundo mandato de Lula, com a criação da Petrosal e o fortalecimento das estatais, e o enfraquecimento de agências regulatórias contribuem para o olhar desconfiado. Em 2002, o candidato Lula editou a Carta ao Povo Brasileiro, em que prometia honrar os contratos, para apaziguar o mercado. Na eleição seguinte, lua de mel.

O bom humor ainda se apoiava na política de ajuste fiscal da equipe do então ministro da Fazenda Antonio Palocci. Do lado tucano, críticas frequentes de Serra à política monetária e ao câmbio fazem com que analistas apostem que ele será menos conservador e mais intervencionista na condução da política econômica.

Lula verbalizou a percepção do mercado de que não há candidato de direita. “Antes, era o de centro-esquerda ou o de esquerda contra os trogloditas de direita. Agora, uns podem não ser tão de esquerda quanto eram, mas não tem problema”, disse.

Para Schwartsman, “não há campeão de mercado livre nesta eleição”. “Ambos têm uma visão mais intervencionista. São pessoas que me parecem mais semelhantes do que diferentes. É mais uma diferença de estilo do que de substância”, completou. Marinis acha que “não há diferença substancial entre a política fiscal do governo Lula e a do governo Serra nos últimos anos”. “Ambos se calcaram na maior arrecadação para expandir gastos”, declarou Marinis.

Padovani questiona o “barulho”. “O mercado trabalha com ruído, não com ruptura. Não dá para dizer quem vencerá, mas a política será a mesma. As pessoas podem se preocupar mais com um ou com outro, mas nada como ruptura.”