Foto: Supremo Tribunal Federal

Nelson Jobim: ex-presidente do Supremo continua sendo o "vice" dos sonhos de Lula.

Na mesma semana em que levantamentos do Datafolha e do Instituto Sensus indicaram a possibilidade de uma vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno, o Palácio do Planalto definiu uma estratégia para tentar transformar as pesquisas de opinião em votos de verdade em 1.º de outubro.

Lula está convencido de que tem chances reais de liqüidar a parada na primeira fase e convocou uma reunião de quatro horas, na quarta-feira, no Planalto, para discutir o assunto com o ministro de Relações Institucionais Tarso Genro, o presidente da Câmara, Aldo Rabelo (PCdoB-SP), além de dirigentes do PT, do PCdoB e do PSB.

Em ambiente de comemoração pelo desempenho nas pesquisas, Lula deixou claro que a aliança com o PMDB é prioridade absoluta. Num esforço para atrair a legenda, ele marcou encontro com o ex-governador Orestes Quércia para segunda-feira. Lula imagina que pode arrematar o PMDB para seu palanque se oferecer a vaga de vice-presidente, hipótese que a maioria de seus auxiliares define como sonho de uma tarde de outono. Um interlocutor do presidente garante que Lula ainda não desistiu de convidar para a vaga o ex-deputado Nelson Jobim, que deixou a presidência do Supremo Tribunal Federal dizendo que não iria concorrer a nenhum cargo executivo nas eleições de 2006.

A idéia do Planalto é montar uma dezena de palanques fortíssimos em estados de grande poder de fogo eleitoral. O governo calcula que a parada decisiva será jogada nas próximas semanas, quando ocorrem as convenções partidárias. Nos próximos dias, Tarso e o presidente do PT, Ricardo Berzoini, além do próprio Lula, estarão mobilizados para entrar em negociações de bastidor para definir quem será quem na campanha.

Tarso e Lula devem manter conversas externas. Já Berzoini recebeu a incumbência de levar uma discussão interna no PT, tarefa que pode se revelar traumática. Em nome da reeleição, diversos candidatos do PT devem ser convencidos a arquivar a própria campanha para apoiar aliados. Há dificuldades previsíveis. O PCdoB quer disputar o Distrito Federal com o ex-ministro dos Esportes Agnelo Queiroz. Ocorre que os petistas já lançaram Arlete Sampaio, líder reconhecida da legenda.

Em Santa Catarina e Paraná, o Planalto considera que é prioridade apoiar os palanques de Luiz Henrique e Roberto Requião. O argumento em defesa de uma operação que já deu errado em outras eleições segue a linha do sacrifício particular em nome de um bem maior.

O esforço federal pelo primeiro turno pode prejudicar a campanha do senador Aloizio Mercadante ao governo de São Paulo. O Planalto quer polarizar a campanha paulista entre Mercadante e José Serra, esvaziando outros concorrentes, o que beneficia o candidato do PSDB, em melhor posição nas pesquisas. Já o senador, que precisa impedir uma decisão no primeiro turno, tem interesse em estimular outras candidaturas. "Lula sempre defendeu Mercadante, mas agora as estratégias são diferentes", explica um dos articuladores do Planalto.

O encontro de quarta-feira teve momentos descontraídos. "Depois de tudo o que enfrentou, Lula virou aquele sujeito de bem com a vida, que sabe que Deus existe e gosta dele", resume um dos presentes, bem-humorado.