A força-tarefa da Lava Jato em Curitiba vê o recente atrito com a Procuradoria-Geral da República (PGR) como um dano colateral à tentativa de enfraquecer o ex-juiz Sergio Moro e favorecer o presidente Jair Bolsonaro politicamente.

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Nas palavras de um procurador, há um grupo político que “não quer que o nome da Lava Jato seja carregado para as próximas eleições”. Moro é constantemente citado como presidenciável em 2022 e seu nome está fortemente ligado à operação contra a corrupção.

O clima entre a força-tarefa e a PGR azedou depois de uma visita da subprocuradora da República Lindôra Araújo, que coordena a força-tarefa da Lava Jato na capital federal, aos procuradores no Paraná, na semana passada.

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O grupo de Curitiba acionou a Corregedoria do Ministério Público Federal (MPF) depois da visita de Lindôra, que é nome de confiança do procurador-geral da República, Augusto Aras. Ela teria pedido acesso a dados sigilosos da Lava Jato “sem prestar informações sobre a existência de um procedimento instaurado, formalização ou escopo definido”, segundo a força-tarefa. A PGR subiu o tom no fim de semana, afirmando que a Lava Jato não é “um órgão autônomo” e distinto do MPF, “mas sim uma frente de investigação que deve obedecer a todos os princípios e normas internos da instituição”.

Na visão dos procuradores de Curitiba, o atrito com a força-tarefa é um respingo da tentativa de enfraquecimento de Moro, que até abril último era ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro. Os procuradores avaliam que Lindôra é a subprocuradora “mais bolsonarista” da PGR e destacam uma suposta relação de proximidade que ela mantém com o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente.

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A Lava Jato também enxerga nesse contexto de atuação política da PGR a retomada das negociações para um acordo de delação premiada com o advogado Rodrigo Tacla Duran, que atuou como advogado da Odebrecht, foi alvo da operação e está foragido. Tacla Duran acusa o advogado Carlos Zucolotto, amigo de Moro, de pagar propina para fechar acordos de delação premiada na Lava Jato.

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Para os procuradores, a retomada da negociação do acordo pode ser uma tentativa de forçar uma operação de busca e apreensão contra o ex-juiz “para efeito desmoralizador, com vistas a 2022”. Desde antes de deixar o governo, o ex-ministro é visto como possível candidato à Presidência nas próximas eleições, apesar de sempre negar enfaticamente essa possibilidade.

Moro sofre ataques em outras frentes desde que deixou o governo, em abril. Ele foi proibido de advogar por seis meses pela Comissão de Ética da Presidência da República e, após estrear uma coluna no site O Antagonista, o Ministério Público que atua junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) pediu que Moro deixe de receber o salário de ministro durante a quarentena imposta pela Comissão de Ética da Presidência. Além disso, o ex-ministro tem tido o nome vetado por movimentos pró-democracia que buscam formar uma frente de oposição ao governo Bolsonaro.

Em artigo publicado recentemente no jornal Folha de S. Paulo, a filosofa Catarina Rochamonte disse que “o que mais pesa para a onda de ataques [a Moro] nesse momento é o capital político dele e a possibilidade de, em 2022, rivalizar com os extremos à esquerda e à direita”.

Para o juiz, porém, a questão vai muito além das eleições. “Como juiz ou como ministro, sempre fui um defensor da lei, da coerência e da agenda anticorrupção; então vejo esse movimento como algo mais amplo, ou seja, um ataque a essa agenda específica e também ao inconformismo com a desmistificação de alguns ídolos. Mas, independentemente de mim, boa parte da sociedade defende o combate à corrupção e às inverdades, portanto os ataques têm prazo de validade”, disse Moro à Gazeta do Povo.

Interesse em investigações contra governadores

A Lava Jato também ressalta que recentemente a subprocuradora pediu aos Ministérios Públicos que enviassem dados de investigações de governadores à PGR. Segundo os procuradores, o pedido não é ilegal, mas chamou a atenção o fato de Lindôra ter requisitado informações apenas envolvendo governadores e não outros políticos com prerrogativa de foro.

Lindôra pediu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para investigar oito governadores por compras emergenciais realizadas no enfrentamento da pandemia ao novo coronavírus. Entre eles estão João Doria (PSDB-SP) e Wilson Witzel (PSC-RJ), adversários políticos do presidente Jair Bolsonaro.

Em maio, a PF deflagrou uma operação contra o governador do Rio cercada de polêmicas. Um dia antes da deflagração, a deputada bolsonarista Carla Zambelli (PSL-SP) disse em uma entrevista que governadores eram investigados pela PF. “A gente já teve algumas operações da Polícia Federal que estavam ali, na agulha, para sair, mas não saíam. E a gente deve ter, nos próximos meses, o que a gente vai chamar, talvez, de ‘Covidão’ ou de, não sei qual vai ser o nome que eles vão dar, mas já tem alguns governadores sendo investigados pela Polícia Federal”, disse. O STJ investiga se houve vazamento da operação.


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