O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, considerou “injustificado” o polêmico pedido do Ministério Público (MP) do Distrito Federal para quebrar o sigilo telefônico da área onde se encontra o Palácio do Planalto numa investigação sobre o suposto uso de celular pelo ex-deputado José Dirceu (PT-SP), preso no Complexo Penitenciário da Papuda, condenado no processo do mensalão.

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“Desde já, verifica-se o total descompasso da injustificada pretensão de pedir quebras de sigilos telefônicos (chamadas efetuadas/recebidas) dentro destes quadrantes, se o suposto uso do equipamento teria ocorrido dentro do local onde está sendo cumprida a pena”, afirma Janot, em parecer encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Para o procurador-geral, o pedido desrespeita o princípio da “proporcionalidade” para se apurar o caso. Ele lembra que o suposto episódio de uso de celular por Dirceu teria acontecido apenas em 6 de janeiro e que o pedido da Promotoria solicita a quebra de sigilo telefônico das áreas da Papuda e do Palácio do Planalto durante a quinzena de 1º a 16 de janeiro. “Além disso, o prazo injustificado revela uma pretensão muito além. Há um excesso sem justificativa plausível e uma pretensão totalmente desarrazoada”, ressalta o procurador-geral. “Por fim, e diante do que tudo exposto até aqui, parece ão haver sustentação alguma para se poder dizer que, minimamente, haja uma relação de racionalidade entre o pedido e o fim perseguido”, conclui o procurador-geral.

Coordenadas

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A polêmica sobre o uso de celular por Dirceu – o que ele nega categoricamente – teve início em janeiro, quando foi divulgado pela imprensa que ele teria conversado com o secretário do Governo do Estado da Bahia, James Correia. A investigação de âmbito administrativo do Complexo da Papuda, contudo, não comprovou que o ex-ministro teria usado o celular.

Mas a promotora de Justiça Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa considerou “insuficientes as providências adotadas na esfera administrativa” e, em fevereiro, encaminhou uma petição à Vara de Execuções Penais do Distrito Federal. Nela, Márcia aponta a “necessidade de confronto entre as ligações realizadas pelos aparelhos de telefonia móvel que se encontravam no presídio e pelos aparelhos de telefonia celular que se encontravam no Estado da Bahia, no mesmo período de tempo, isto é, na primeira quinzena de janeiro de 2014”.

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No pedido, ela requereu expedição de ofício às operadoras Claro, TIM, Nextel, Oi e Vivo para que “informem as chamadas efetuadas/recebidas” de antenas que captam sinais de celulares localizadas nas áreas do presídio da Papuda e do Palácio do Planalto. No requerimento, contudo, Márcia apenas indica as coordenadas geográficas do edifício e não cita, expressamente, a sede do governo. Por causa desse pedido, a Advocacia-Geral da União (AGU) requereu que o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) abrisse uma investigação sobre a conduta da promotora. O CNMP abriu um procedimento administrativo.

‘Denúncias informais’

Em meio à polêmica, na quarta-feira (23) Márcia reafirmou a necessidade de obter dados sobre ligações de telefone celular destinadas à região do Palácio. A base da demanda, disse em petição, é uma denúncia “informal”. A promotora insistiu em querer das operadoras de telefonia informações sobre “eventual existência de chamada oriunda do Centro de Internamento e Reeducação (CIR) e direcionada à área objeto das coordenadas mencionadas (Palácio do Planalto)”.

De acordo com Márcia, a requisição não configuraria quebra de sigilo. “Busca-se apenas a informação sobre os dados telefônicos, a fim de esclarecer se o sentenciado, efetivamente, violou dispositivo disciplinar (?). Trata-se de medida menos gravosa e indispensável à das denúncias trazidas ao Ministério Público”, argumentou. A defesa de Dirceu classificou como um “atentado ao Estado Democrático de Direito” a petição de rastreamento telefônico realizada pela promotora, amparado por uma denúncia “informal”.