Executivos da Odebrecht Ambiental confessaram ter pago R$ 300 mil de caixa dois ao ex-prefeito de Mairinque Binho Merguizo (PMDB-SP), nas eleições municipais de 2012. O nome dele, com o apelido Figura consta em planilha entregue pelo ex-presidente da Odebrecht Ambiental, Fernando Reis, em seu acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal de São Paulo.

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O executivo estimou que pelo menos R$ 20 milhões tenham sido doados pela Odebrecht Ambiental a candidatos, com o objetivo de manter ou obter contratos na área de saneamento. O valor mistura caixa dois e doações oficiais, muitas intermediadas entre o próprio político e a empreiteira. Na planilha, são identificados 80 nomes de políticos – 10 repasses constam com nomes genéricos, como vereadores, vários e deputado. Somente em São Paulo, executivos da companhia de saneamento e tratamento de água do grupo dizem ter pago R$ 9,1 milhões em caixa dois, para financiar eleições municipais com caixa dois. Eles identificaram 23 candidatos cujas campanhas foram contaminadas.

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Por decisão do ministro relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, o destino das 13 petições da Procuradoria Geral da República para investigar supostas propinas envolvendo a Odebrecht Ambiental nos municípios paulistas é o Tribunal Regional Federal da 3ª Região.

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“Eu era totalmente inexperiente”, recordou Guilherme Paschoal, diretor regional de São Paulo da Odebrecht Ambiental, sobre o ano de 2012, quando foi designado pelo então presidente da empresa, Fernando Cunha Reis, para pinçar candidatos que não criassem nenhum óbice ou dificuldade contratual em municípios aonde a construtora já tinha concessões ou que tivessem o interesse de privatizar os serviços de saneamento em suas cidades. No Estado, Paschoal foi o responsável por identificar políticos que se enquadrassem nesses perfis e indicá-los ao executivo, que bateria o martelo sobre quanto seria doado aos candidatos.

À época, a preferência da Odebrecht Ambiental era pelo caixa dois. Um dos motivos seria o impedimento que a lei eleitoral impõe às concessionárias e permissionárias de serviços públicos de doarem a campanhas eleitorais.

O presidente da Odebrecht Ambiental Fernando Reis repassava aos diretores regionais a tarefa de mapear municípios que tivessem índices baixos de tratamento de esgoto e fornecimento insuficiente de água pelas autarquias locais responsáveis. Ao prometer financiamento de campanhas a candidatos nessas regiões, os diretores da empresa eram orientados a mostrar planos da construtora para as cidades e que deixassem claro que as doações – quase sempre, via caixa dois – tinham como objetivo abrir caminho para privatizar aqueles serviços.

Mairinque. Na cidade de Mairinque, interior de São Paulo, a Odebrecht Ambiental operou desde 2010, por meio do controle da Saneaqua. Em 25 de abril deste ano, com a compra da empresa do grupo pela Brookfield, a BRK Ambiental passou a ser acionista, ao lado da Sabesp, da concessão. Em 2012, quando chegou à diretoria regional da Odebrecht em São Paulo, Guilherme Paschoal foi escalado para indicar caixa dois em nome da regularidade contratual da Odebrecht na região.

“Só tinha um candidato à eleição. Os outros não tinham chance qualquer. Nesse município, foi o Binho Merguizo Rubens Merguizo Filho, do PMDB. Fernando Reis aprovou o nome dele e definiu o valor de R$ 300 mil para a contribuição de campanha. Ele pediu para que eu procurasse o candidato para identificar que contribuiríamos e a razão da contribuição é nossa intenção de manter boa relação, canal aberto, de forma que conseguíssemos implementar os investimentos e operar o contrato dentro da normalidade”, relatou.

Em uma primeira reunião, no escritório da Odebrecht, o delator diz ter recebido Binho Merguizo, acompanhado de um senhor engenheiro de sobrenome Zaparolli. No encontro, o diretor da empreiteira diz ter apresentado os investimentos da companhia no setor de saneamento desde o início da concessão, e o cronograma para novos valores. “Ele ficou muito satisfeito, entendia a importância do projeto para o município. Inclusive, na reunião, apresentou alguns questionamentos em relação à priorização dos investimentos que o contrato determinava, mas disse que entendia a importância do contrato”.

“Informei que iríamos contribuir de fato com a campanha. Não informei o valor a ele. Não tinha ainda à época. Disse que iríamos contribuir e que a contribuição iria via caixa dois”, lembrou.

Definido pelo então presidente da Odebrecht Ambiental, Fernando Reis, o caixa dois a Merguizo foi de R$ 300 mil. Ele aparece com o codinome “Figura”, no sistema Drousys do departamento de propinas da Odebrecht, onde constam repasses da empreiteira a políticos. Na planilha da empresa, o pagamento aparece dividido em duas parcelas de R$ 150 mil.

Como de praxe, o diretor da Odebrecht Ambiental, Eduardo Barbosa, recebia os valores dos repasses de Fernando Reis e marcava horários, datas e senhas para que o dinheiro, em espécie fosse retirado pelo candidato. Ficou a cargo de Guilherme Paschoal informar Merguizo sobre como proceder para receber o caixa dois.

“Entrei em contato com o Zaparolli, pedi que ele passasse na sede da Odebrecht ambiental em Mairinque para receber informações de endereço, senha, data e hora para a retirada do valor. Telefone, liguei para o celular dele do meu escritório. E as informações foram entregues por alguém que não me recordo quem. Eu enviei um envelope lacrado lá entregue ao Zaparolli”, relatou.

Durante o mandato de Binho Merguizo (PMDB-SP), que foi eleito em 2012, o delator diz ter conversado da com o peemedebista abertamente sobre a concessão. “Havia uma revisão de tarifa, que ele queria entender por que. Ele questionou muito. Até que é bem capacitado. Tinha um equipe que gostava de interagir, e acompanhava de perto a concessão”, disse.

COM A PALAVRA, BINHO MERGUIZO

A reportagem entrou em contato com o diretório do PMDB em Mairinque, mas não obteve resposta. O espaço está aberto para manifestação.