Doutrina filosófica que embalou a Proclamação da República e inspirou o lema da nossa bandeira, o positivismo virou xingamento no Brasil polarizado de hoje.

Nos últimos tempos, ele vem sendo usado por conservadores contra apoiadores do presidente Jair Bolsonaro que fazem uma defesa da presença de técnicos no governo. Em geral, o insulto é direcionado aos militares.

Como sempre, o comando foi dado por Olavo de Carvalho. “Não confie em conselheiros positivistas e pragmatistas”, disse ele em 7 de março a Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), numa conversa transmitida pela internet, quando o deputado federal pediu ao filósofo que desse um conselho a seu pai.

O positivista, explicou Olavo, “proíbe o discurso ideológico, mas só o da direita”. “É um sem vergonha, filho da puta, traidor”, concluiu o guru.

A associação do termo aos militares explica-se: foram eles, no Brasil, quem mais se entusiasmaram, na segunda metade do século 19, com as ideias propostas pelo francês Augusto Comte (1798-1857).

O positivismo, em linhas gerais, defende o método científico, a popularização da educação e relações éticas e igualitárias para atingir a “ordem e progresso”, expressão que foi parar na nossa bandeira.

Embora tenha perdido muito de sua força ao longo dos anos, continua tendo seguidores no Brasil.

Na releitura feita pelos conservadores, o positivismo virou sinônimo de negação da ideologia, o que é entendido como algo perigoso, por abrir caminho para a volta de ideias progressistas.

No governo, é identificado com os generais Braga Netto, ministro da Casa Civil, e Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo.

“Os positivistas são o pior câncer do Brasil. E se não batermos de frente com eles, de nada terá valido todo o esforço de tirar o PT do poder, as reformas etc.”, tuitou, em 5 de julho, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP).

Recentemente, as críticas afloraram durante o imbróglio da nomeação do novo ministro da Educação, após a demissão de Abraham Weintraub.

Os dois primeiros nomes indicados para a pasta, Carlos Alberto Decotelli e Renato Feder, tinham perfil considerado técnico demais pela ala ideológica, com o agravante de contarem com o apoio dos militares.

“O positivismo é tanto que até fabricam currículos pra dizer que fulano é técnico”, afirmou o deputado Filipe Barros (PSL-PR), em 29 de junho. Estava se referindo aos problemas no currículo de Decotelli, que acabaram inviabilizando sua nomeação.

Para Edson Salomão, presidente do Movimento Conservador, um dos mais atuantes na base bolsonarista, os positivistas partem de uma premissa equivocada, a de que é possível haver técnicos “puros”, sem influência ideológica.

“Eles não acreditam em ideologia, não acreditam que o exercício do trabalho possa sofrer influência. Querendo ou não, a política é feita por força de ideologia. Cada um está defendendo o que acredita. É um cabo de guerra”, afirma.

Na prática, diz Salomão, apenas ideologias de esquerda acabam sendo permitidas, enquanto conservadores são caracterizados como “olavistas histéricos”.

“Não acreditamos em técnico isento de ideologia. O cidadão é formado ideologicamente, tem a filosofia em que acredita”, diz.

Em termos práticos, os opositores do “positivismo” se insurgem contra quadros do governo que se distanciam da guerra ideológica contra a esquerda, ou que fazem acenos pragmáticos a adversários.

Isso explica o fato de ministros como Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Damares Alves (Direitos Humanos) ou Ricardo Salles (Meio Ambiente) frequentemente fazerem agrados à base conservadora, muito atuante em redes sociais, com manifestações fortes e gestos contundentes.

Ajuda a entender também o descontentamento gerado entre os ideológicos, por exemplo, com a demissão do próprio Weintraub, vista como uma capitulação de Bolsonaro ao pragmatismo.

Não são apenas os militares que estão na mira. Ministros considerados de perfil mais técnico, como Tarcísio Freitas (Infraestrutura) e Tereza Cristina (Agricultura), também já sofreram ataques. Cristina, em especial, é um alvo primordial, pois o agronegócio é muito dependente da exportação para a detestada China “vermelha”.

Retórica filosófica à parte, o debate revela a disputa de poder permanente dentro da coalizão que elegeu Bolsonaro. O presidente faz acenos pendulares aos diversos grupos que o sustentam, e com isso vai se equilibrando politicamente.

Quando finalmente houve a escolha do novo ministro da Educação, o pastor Milton Ribeiro, a reação do núcleo ideológico foi moderada. Não houve resistência, porque não era um nome técnico, nem comemoração, por não ser alguém totalmente alinhado ao olavismo.

Ribeiro é evangélico, outra parte importante da base de apoio do presidente, o que lhe dá certa proteção. Ao menos por enquanto.