Às vésperas de mais uma edição temática em Porto Alegre, o Fórum Social Mundial, criado pela esquerda para se contrapor ao Fórum Econômico de Davos, está em crise. Uma disputa interna por espaço levou entidades como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) a se retirarem da organização e outras, como o Movimento Sem Terra, a ignorarem sua realização.

Entre acusações de “institucionalização” do fórum, apropriação pela prefeitura e reclamações de que empresários agora participam das discussões, a crise na edição que começa no próximo dia 26 em Porto Alegre é mais um sinal do enfraquecimento de um encontro que já mobilizou até presidentes, como Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, da Venezuela.

“A CUT adotou a posição pública de não participar desta edição temática. Houve uma descaracterização do Fórum, uma intromissão de pessoas que não tem tradição, e não achamos legítimas algumas atitudes”, disse o presidente da CUT-RS, Claudir Nestolo. A CUT reclama que a edição temática não estava prevista para este ano, já que a grande reunião do Fórum Social Mundial acontece em março, na Tunísia. Os fóruns temáticos deveriam ser realizados em anos pares, descentralizadamente.

No entanto, a ideia de fazer um encontro sobre democracia foi apoiada pelo criador do Fórum, o empresário Oded Grajew, que levará a Porto Alegre oficinas sobre cidades sustentáveis. “Uma das características do Fórum é a auto-organização. Abre-se espaço para que as organizações façam suas atividades, não tem ninguém que organiza ou controla e participa quem quiser”, afirmou.

Uma das maiores reclamações, no entanto, é o fato da prefeitura estar participando mais ativamente da organização. No final do ano passado, foi sancionada uma lei que cria a semana do Fórum em Porto Alegre. Também foi criado um instituto chamado “Amigos do Fórum Social”, liderada pela Força Sindical, e que participaria da organização e incluiria, para revolta das entidades, até mesmo alguns empresários da capital gaúcha. A iniciativa é, na verdade, uma tentativa de trazer o encontro de volta para Porto Alegre, onde nasceu, mas de onde foi retirado quando o PT foi derrotado na eleição para a prefeitura, em 2004, mas não foi bem vista por diversas organizações.

Davos

“As entidades avaliam que o esse fórum ganhou uma conotação muito institucional, com várias seções organizadas por órgãos públicos e temas que não tem relação com a agenda do Fórum Social Mundial”, disse Mauri Cruz, presidente da Abong. “Fizemos um apelo para que fosse suspenso e pudéssemos nos concentrar em 2014, mas o encontro foi mantido. Não deixa de ser legítimo, mas decidimos não participar”. Outras entidades, como o MST, nem sequer começaram a discussão para esse encontro em Porto Alegre.

Na prefeitura de Porto Alegre, a avaliação é de que há um componente político nessa insatisfação, especialmente com a participação do governo municipal. Apesar de ser do PDT, um partido de esquerda, o prefeito José Fortunati ganhou a eleição com apoio de partidos de direita, como o DEM, e infligiu uma derrota histórica ao PT, que pela primeira vez na sua história não foi nem mesmo ao segundo turno.

Apesar de ter como tema central esse ano a primeira árabe e ter como sede o país onde os movimentos começaram, a verdade é que o Fórum Social Mundial perdeu boa parte da sua força. Se até 2005 era palco para discurso de vários presidentes – incluindo Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez -, nos últimos anos têm passado quase desapercebido. Na agenda da presidente Dilma Rousseff, por exemplo, nunca foi sequer cogitado. Em 2011, em Dakar, a grande estrela foi o presidente da Bolívia, Evo Morales.