Os termômetros marcavam 30 graus quando a presidente Dilma Rousseff ensaiou uns passos de samba na esquina da Av. Governador Brizola, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Eram 17h35 de quarta-feira, 22, e Dilma estava prestes a se despedir ali de uma campanha com temperatura elevada, cheia de ofensas e ataques pessoais.

Ao sentir a reeleição ameaçada, na virada do 1º para o 2º turno, a candidata do PT comandou pessoalmente a estratégia para jogar o tucano Aécio Neves nas cordas. Em edição revisitada do “nós contra eles”, Dilma mirou o governo do adversário em Minas, na tentativa de diluir denúncias de má gestão do País e o escândalo de corrupção na Petrobras. Foi uma disputa com contornos maniqueístas, que dividiu o Brasil.

Chamada de “leviana” por Aécio, a presidente fez de tudo para grudar no rival a imagem de playboy que desrespeita a mulher. Aécio chiou e acusou o PT de promover um “mar de lama”. Dilma seguiu o roteiro. “Nada me tira do meu rumo”, disse a petista ao jornal O Estado de S. Paulo. “Quem já suportou as piores agressões na vida, até físicas, tem muita resistência”, emendou, em referência à prisão e à tortura sofrida durante a ditadura militar.

Antes de ultrapassar o adversário nas pesquisas, Dilma enfrentou problemas dentro da própria campanha. As denúncias de malfeitos e cobrança de propina na Petrobras em prol do PT e de partidos aliados fomentaram desavenças na equipe na largada do 2º round. Quanto mais o ex-diretor Paulo Roberto Costa abria a boca, mais divergências sobre a estratégia de defesa apareciam.

Diante disso, Dilma fez uma inflexão. Orientada pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, anunciou que a União buscaria o ressarcimento judicial do dinheiro desviado. Na sexta-feira, 24, foi além: disse que processaria a revista Veja por divulgar notícia “absurda e sem prova” de que ela e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinham conhecimento do esquema de desvios, com base em depoimento do doleiro Alberto Youssef à Polícia Federal.

Sem os russos

As divisões no comitê não se limitaram ao caso Petrobras. Menos de 24 horas após o resultado do 1º turno, Dilma chamou ao Palácio da Alvorada coordenadores de campanha para definir a tática da próxima etapa. Lula não foi convidado. Naquele 6 de outubro, o “criador” de Dilma convocou uma reunião com o candidato derrotado do PT ao governo, Alexandre Padilha, o prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, e o presidente estadual do partido, Emídio de Souza. Estava intrigado com o pífio desempenho do PT em São Paulo e com os “erros” da campanha de Dilma, e previa “o mais longo e acirrado” 2º turno da história.

“Enquanto a gente está aqui discutindo, aposto que eles estão lá, em Brasília, fechando a agenda de segunda, terça, quarta, quinta e sexta sem ouvir ninguém, sem combinar com os russos”, reclamou Lula aos interlocutores, no instituto que leva seu nome, apelidado no Palácio do Planalto de “Serpentário do Ipiranga”.

“Eles” não eram os tucanos, e sim os dilmistas, com que os lulistas travavam uma guerra surda sobre a campanha. Lula reencontrou Dilma pessoalmente só na segunda-feira passada. 20. Foi a partir daí que Lula chamou Aécio de “moleque”, “filhinho de papai” e acusou os tucanos de “nazistas”.

Quem realmente tirou Dilma do sério foi o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, que deu munição a Aécio ao sugerir trocar carne por frango ou ovo para driblar a inflação.

“O que esse menino tem na cabeça?”, esbravejou Dilma. Dois ministros disseram à reportagem que Holland chegou a entregar o cargo, mas foi demovido da ideia para não piorar a situação. Ele negou. O assunto “carne e frango” foi parar na pasta com anotações que Dilma levou aos debates, cujos temas são separados por cores. “É que eu tenho memória visual”, justificou a petista. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.