O alvo da maioria absoluta dos manifestantes que estiveram, no domingo, 15, na Avenida Paulista foi a corrupção. Muitos também reclamaram da situação econômica e da “incompetência” do governo Dilma Rousseff. Grande parte pediu o impeachment da presidente mesmo sem saber muito bem o que isso significa. Uma parcela pequena, mas expressiva, defendeu a intervenção militar e foi criticada. Havia ainda alguns radicais separatistas, integralistas e até skinheads. O perfil era variado, mas uma frase unificou o protesto: “Fora PT!”

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Por volta de 13 horas, centenas de motociclistas atravessaram a Paulista entre os manifestantes em motos grandes e caras, como Harley Davidson e BMW. Todos aplaudiram e aceleraram com força quando um manifestante levantou uma faixa sobre o aumento da gasolina. “Eu nunca gostei do PT, mas a corrupção chegou a um limite abominável”, disse Margarete Nunes, de 46 anos, que ia na garupa da moto Triumph do marido, o empresário Marcos Nunes, de 53.

Depois das 14 horas é que a avenida foi, de fato, tomada, com gente chegando de carro e de metrô. O verde e o amarelo predominaram, apesar de que, embora a manifestação tenha sido pacífica, pessoas vestidas de vermelho eram hostilizadas. Muitas camisas da seleção brasileira serviram de uniforme. A maioria era de famílias brancas de classe média. “Não é só aqui. Nas faculdades e nos ambientes elitizados geralmente têm poucos negros”, disse Mylene Souza, de 33 anos, uma das poucas negras vistas no ato.

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Além do onipresente “Fora PT!”, as palavras de ordem variavam conforme a posição ideológica dos manifestantes. “Fora Dilma”, “Verde e amarelo é a cor do país, não o vermelho” e “Eu vim de graça” – referência a militantes pagos pela CUT na sexta-feira, 13, – foram as mais utilizadas, mas também houve quem usasse palavrões contra Dilma e chamasse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um dos alvos preferidos, de “vagabundo” e “cachaceiro”. A reportagem não registrou menções aos escândalos de corrupção envolvendo o governo estadual ou à crise hídrica.

Nos oito carros de som, as músicas “Brasil”, de Cazuza, e “Que País é Este”, da Legião Urbana, foram os hits. Embalado por uma garrafa de catuaba, o vendedor Jonathan Vieira, de 23 anos, da Mooca, atraiu curiosos enquanto cantava um funk cujo refrão era “Mundo, mundo, o PT é imundo”.

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Já o cantor Chico Buarque de Holanda foi alvo da publicitária Renata Haberland, que levou o cartaz: “Cálice Chico”, trocadilho com a música cujo refrão “Cale-se” foi um hino em defesa da liberdade de expressão durante a ditadura militar. “Não estou nem aí. É para calar a boca do Chico mesmo”, disse ela. Também havia faixas com ataques a programas sociais. “Chega de sustentar quem não quer trabalhar”, lia-se em uma delas. “Investiguem a família do Lula”, via-se em outra. “Obrigado PT pelo 11 de setembro” também chegaram a escrever.

Famílias

Havia muitas famílias. A administradora Silvia Rioli, de 65 anos, foi com sete dos oito filhos na manifestação – o outro está nos Estados Unidos e não pôde comparecer. “Viemos para as ruas com todo mundo, assim como foi nas ‘Diretas-Já'”, disse ela, que afirma ter visto coisas em comum entre os dois episódios. “Lá atrás, também começou com manifestação grande e foi crescendo. Essa será só a primeira”, diz.

A filha Mariana Rioli, de 34 anos, que é arquiteta, diz ser contra o impeachment. No peito, uma placa pedindo voto distrital. “Esse movimento é para começar as discussões dos rumos do País. Essa ganância pelo poder populista precisa ser deletada”, diz ela. “Não sou a favor do impeachment, quero que a Dilma arque com toda essa política de 12 anos. O próprio Bolsa Família, que não sou contra, se tornou uma forma populista para se reeleger.”

“Veteranos” das manifestações pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello voltaram às ruas, agora levando os filhos a tiracolo. “Cidadania se ensina desde criança”, disse o médico João Guerra, que era “cara-pintada” nos protestos contra Collor. Enquanto se escondia da chuva, a engenheira Cristina Ochoa, explicava ao filho Rodrigo, de 7 anos, que “partido político é um grupo de pessoas que se une para defender alguma coisa”.

Manifestantes moderados torciam o nariz para os radicais defensores da volta dos militares ao poder, que eram minoria mas fizeram barulho. Ao som de uma gaita de foles, a extinta Tradição Família e Propriedade (TFP) também marcou presença na manifestação. O instituto Plínio Corrêa de Oliveira coletou assinaturas a favor do impeachment e contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Já o desenhista industrial José Fogaça e o filho Felipe, de 18 anos, carregavam uma grande bandeira de São Paulo. Eles integram o movimento separatista paulista. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.