Foto: Agência Estado Foto: Agência Brasil

José Janene:
bem disposto
num churrasco
no Paraná.

Izar: Janene
se ofereceu para
depor na estréia
do Brasil.

O Conselho de Ética da Câmara decidiu julgar à revelia o deputado José Janene (PP-PR). Em nova manobra para atrasar seu julgamento, Janene se negou ontem, mais uma vez, a depor no processo que pede a cassação de seu mandato. Para dar segurança ao deputado, que sofre de uma grave doença no coração, três médicos da Câmara foram destacados para acompanhar o depoimento, mas assim mesmo Janene não quis falar, alegando não estar bem.

Como o deputado vem adiando seu depoimento desde o ano passado, o conselho reagiu marcando para terça-feira a votação do pedido de cassação, que deverá se consumar mesmo que Janene não seja ouvido. A irritação dos conselheiros com o comportamento de Janene ficou evidente. O deputado Nelson Trad (PMDB-MS) mostrou cópia de reportagem que reproduziu fotos em que Janene aparece bem disposto durante um churrasco no Paraná.

"Exijo seriedade e respeito com este conselho", afirmou Trad. "Dias atrás, esse cardiopata apareceu nos jornais em um piquenique, ou sei lá o quê, mostrando a brincadeira que vem fazendo com esse órgão há nove meses."

O presidente do conselho, deputado Ricardo Izar (PTB-SP), disse ter sido procurado por interlocutores de Janene que tentaram convencê-lo a marcar outra data para o depoimento. "Eles queriam adiar o depoimento de Janene para 13 de junho, o dia da estréia do Brasil na Copa", disse Izar, rejeitando a sugestão.

Janene passou por uma avaliação médica na Câmara. O deputado queria que os médicos e o presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), se responsabilizassem caso seu quadro de saúde piorasse durante o depoimento. "Não temos condições de assumir a responsabilidade de que nada iria acontecer com ele", disse o diretor do Departamento Médico da Câmara, Luiz Henrique Hargreaves. "Não houve proibição para que ele fosse depor."

Um dos advogados de Janene, Marcelo Leal de Lima Oliveira, enviou ofício ao conselho seis minutos antes do início do depoimento informando que o deputado não iria depor "diante da ausência de garantia quanto aos riscos envolvidos em caso de seu comparecimento".

Izar disse que as duas testemunhas de Janene, que deveriam depor hoje, informaram que não irão comparecer. O deputado José Linhares (PP-CE) explicou que como Janene não depôs, ele não teria motivo para prestar declarações. E o deputado Agnaldo Muniz (PP-RO) justificou a sua ausência com o falecimento de um político de sua região.

Janene é acusado de ter recebido R$ 4,1 milhões do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, operador do mensalão. O principal assessor do deputado, João Cláudio Genu, teria feito saques das contas de Valério. Janene argumenta que o PP recebeu apenas R$ 700 mil para pagar o advogado do ex-deputado Ronivon Santiago (AC), cassado pela Justiça Eleitoral e agora preso pela Operação Sanguessuga.

O processo contra Janene é o último dos 19 procedimentos abertos contra deputados acusados pela CPMI dos Correios de envolvimento no esquema do mensalão. Até agora foram cassados os deputados José Dirceu (PT-SP), Roberto Jefferson (PTB-RJ) e Pedro Corrêa (PP-PE). Renunciaram para fugir da cassação os deputados Paulo Rocha (PT-PA), José Borba (PMDB-PR), Valdemar da Costa Neto (PL-SP) e Carlos Rodrigues (PL-RJ).

A maior parte dos acusados foi absolvida: Sandro Mabel (PL-GO), Romeu Queiroz (PTB-MG), Roberto Brant (PFL-MG), Pedro Henry (PP-MT), João Paulo Cunha (PT-SP), Professor Luizinho (PT-SP), José Mentor (PT-SP), João Magno (PT-MG), Wanderval Santos (PL-SP), Josias Gomes (PT-BA) e Vadão Gomes (PP-SP).