As redes sociais convulsionaram nesta segunda (16) com a viralização de “Sulito”, um mascote atribuído ao movimento separatista O Sul é o Meu País, que prega a emancipação política e administrativa dos três estados da Região Sul do resto do Brasil — o que é inconstitucional. Sulito é um mapa político da Região Sul que ganhou braços, pernas, um rosto e um boné do movimento.

Sua função é clara: atrair simpatizantes do movimentoa votar “sim” no Plebisul, consulta popular informal e sem qualquer interferência no rumo da República Federativa do Brasil sobre a eventual criação de um país independente formado por Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a ser realizada pelo movimento em outubro próximo. “Abrace esta causa”, diz a figura do mascote, criado por uma ativista do movimento, Aline Freitas.

Sulito, entretanto, não pode ser qualificado como mascote oficial dos separatistas. “Não tem absolutamente nada a ver oficialmente com o Movimento O Sul é o Meu País. Não temos mascote. O que aconteceu foi que uma de nossas ativistas postou aquela imagem que ela mesma fez em seu computador de forma extremamente amadora e deu este nome”, afirma o ex-presidente e fundador do movimento, Celso Deucher.

Nas redes sociais, a presença do mascote causou grande furor, gerando uma série de reações jocosas, como a criação dos personagens Nortito, Nordestito, Centro-Oestito e Sudestito, que se juntariam a Sulito para formar o Brasilzord . “Um pessoal tentou ridicularizar o movimento e postou no Twitter dizendo tratar-se de um mascote oficial do movimento. Daí toda esta celeuma”, diz Deucher.

Apesar de não ter sido oficializado, Sulito pode acabar ganhando seu lugar como símbolo oficial de O Sul é o Meu País. “Estamos discutindo. Para ser aprovada, a ideia teria que ser levada à assembleia geral do movimento. Às vezes isso pode ajudar no marketing. Pode acontecer. Mas aí faríamos de forma profissional, bem feita”, revela Deucher. “Tomamos muito cuidado com o que a gente publica, mas quem tá na chuva é pra se molhar. Queremos ser levados a sério”, completa.

No centro da mais nova polêmica das mídias sociais, a ativista Aline Freitas publicou em sua página no Facebook: “O Sulito viralizou na internet? Sim! O Sulito está sendo assunto nas principais mídias? Sim! O Sulito está bombando no twitter? Sim! O Sulito NÃO é o mascote do Movimento, mas algo é inegável, levou a data do próximo PLEBISUL a milhares de pessoas, e sem querer, popularizou ainda mais o Movimento. É isso aí Sulito, você já nasceu grande!”

Uso de mascotes com fins políticos não é novo

O uso de mascotes com fins políticos não é novo. A Copa do Mundo foi pioneira na criação dessas figuras, que, originalmente, se referiam a animais-símbolo do país, como o leão Willie, mascote da Copa de 1966, na Inglaterra, e o cão da raça dachshund Waldi, mascote das Olimpíadas de 1972, em Munique.

Durante o auge da Guerra Fria os mascotes perderam o espírito esportivo e ganharam reforço na carga ideológica. Primeiro foi o urso Misha, mascote das Olimpíadas de Moscou de 1980. Sucesso com o público infantil, Misha visitou a estação espacial soviética Salyut 6 ainda em 1978, antes dos jogos, e entrou para a história ao derramar uma lágrima durante a cerimônia de encerramento da Olimpíada, em um mosaico perfeitamente executado pelos organizadores.

Já em 1984, a Olimpíada de Los Angeles teve como mascote a águia Sam, criada por C. Robert Moore, um desenhista da Disney. Além do nome fazendo referência ao Tio Sam, a mascote era uma águia americana que usava uma cartola com as cores da bandeira americana e tinha as feições do Tio Patinhas, numa clara alusão à ideia de superioridade que as superpotências da época precisavam demonstrar.

Mascote deveria traduzir essência e valores comuns, diz especialista

Para o publicitário Renato Cavalher, vice-presidente de Criação do Grupo OM Comunicação Integrada, personagens animados conseguem boa aceitação com o público infantil e, por isso, quase sempre estão associados a uma estratégia de renovação de público a médio prazo. “Mesmo na iniciativa privada, a responsabilidade é grande, já que influenciam um público vulnerável. Com campanhas públicas ou políticos, a responsabilidade é maior ainda. A intenção e os objetivos precisam estar muito claros, assim como os valores e os limites morais”.

Na avaliação de Cavalher, Sulito “peca pela ingenuidade”: “É uma expressão meramente geográfica, que não tem um conceito forte. Sem entrar no mérito da causa, que é bastante controversa, o mascote deveria traduzir a essência dos povos do Sul ou seus valores em comum e não apenas a delimitação das fronteiras”, afirma.