Foto: Marcello Casal/Agência Brasil

Chinaglia, Rebelo e Fruet: eleição na Câmara debilita aliados do Palácio do Planalto.

A Câmara Federal escolhe hoje seu presidente para os próximos dois anos em meio a uma disputa que rachou a base governista e ameaça a formação de um bloco coeso em defesa dos interesses do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A eleição marca também o rompimento do PC doB e do PSB com o PT, historicamente ligados, no confronto direto dos candidatos Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e Arlindo Chinaglia (PT-SP).

Qualquer que seja o vitorioso, o embate – decidido em votação secreta – deixará seqüelas para o Planalto administrar. O pior cenário, no entanto, seria a vitória, embora pouco provável, do terceiro candidato, Gustavo Fruet (PSDB-PR), de oposição.

Com o acirramento e as reviravoltas na disputa, a tendência é de que haja dois turnos hoje. Aliados do petista Arlindo Chinaglia (PT-SP) trabalhavam, até ontem à noite, por uma remota chance de vitória no primeiro turno, porém os outros dois candidatos contabilizavam votos suficientes para a disputa em dois turnos.

Coordenadores da campanha do petista avaliavam que uma segunda disputa com Aldo dificultaria a vitória de Chinaglia, por causa de um suposto ?sentimento anti-PT? na Câmara. Na única vez em que o partido venceu uma disputa no voto secreto, em 2003 o petista João Paulo Cunha era candidato único a presidente.

No caso de segundo turno, o PSDB, partido de Fruet e com 64 deputados, será decisivo na disputa. O líder dos tucanos, Antonio Carlos Pannunzio (SP), adiantou que a bancada estará liberada para votar no candidato que quiser, caso Fruet fique fora da disputa. ?Não há porque dividir o partido. O PSDB liberará a bancada?, afirmou Pannunzio. Chinaglia conta com o apoio formal do maior número de partidos, mas todos os concorrentes têm votos de dissidentes nas bancadas.

O ex-ministro e deputado Ciro Gomes (PSB-CE) foi categórico na previsão de que será impossível recompor plenamente a base: ?Há feridas insuperáveis.? Ele avaliou que, no dia seguinte, os derrotados poderão até dizer que a questão está superada porque vão entender que não será o momento de dar o troco. ?Mas não estará mais tudo bem?, concluiu.

Do mesmo partido do ex-ministro, o deputado Beto Albuquerque (RS) demonstrou preocupação com o uso da máquina do governo por petistas nas últimas horas antes da eleição. ?Espero que o governo obedeça o presidente Lula e mantenha a neutralidade. Quem ganhou a eleição para a Presidência da República foi Lula, não o PT?, disse.

Blocos disputam a mesa da Câmara

Brasília (AE) – A disputa por cargos na cúpula da Câmara fez 16 dos 20 partidos formarem ontem três grandes blocos para lotear as 11 vagas disponíveis na chamada mesa diretora. O interesse das legendas era manter ou ampliar o espaço a que cada uma tem direito dentro da regra de respeito ao tamanho das bancadas. Quanto maior a bancada, melhores os cargos a que o partido tem direito. Por isso, dos 513 deputados, apenas 19 (3,7%) pertencem a legendas que não se associaram aos novos grupos.

O maior bloco tem oito partidos, todos da base do governo, com 273 deputados. É o maior bloco já formado no Legislativo. Estão reunidos nele PMDB, PT, PP, PR (partido formada pelo PL mais Prona), PTB, PSC, PTC e PTdoB. Reuniram-se também PSDB, PFL e PPS, somando 153 deputados. O terceiro bloco é formado por PSB, PDT, PCdoB, PAN e PMN, com 68 parlamentares.

Os próprios líderes dos partidos que se uniram reconhecem que os blocos têm prazo de validade. Assim que forem eleitos os integrantes da mesa diretora e os presidentes das comissões permanentes da Câmara, os dois maiores blocos serão desfeitos. Não chegarão a ter uma atuação parlamentar mais duradoura. As comissões deverão ser formadas até março. O ex-ministro e deputado eleito Ciro Gomes considerou fisiológica a união para obter cargos. ?Se for apenas para buscar hoje, de maneira absurdamente fisiológica, este ou aquele carguinho na Câmara, é uma tragédia?, afirmou.

O líder do PSDB, Antônio Carlos Pannunzio (SP), classificou como ?um desserviço à democracia? a formação de blocos partidários para garantir vagas da mesa, mas disse que foi a única forma de reagir à formação dos outros grupos. ?Se queremos fortalecer a democracia, temos que fortalecer os partidos e nada mais natural do que respeitar a proporcionalidade da representação de cada um. Mas a partir do instante que a base do governo resolveu formar bloco, não nos restou outra alternativa?, disse Pannunzio.

O líder do PFL, Rodrigo Maia (RJ), foi claro: ?O PFL fez bloco em defesa de sua vaga na mesa. É um bloco para garantir o que julgamos correto?, disse Maia. Sem o bloco, o PFL e o PSDB poderiam ficar sem titulares na mesa. O fator desencadeador da formação dos blocos na véspera da eleição da mesa diretora foi a associação do PSB, PCdoB e PDT com pequenos partidos. ?A formação do bloco foi para dar o tombo em quem quis dar tombo na gente?, resumiu o líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes (GO). Para o líder do PT, Henrique Fontana (RS), o megabloco foi um ?ato de legítima defesa?. ?É próprio dos blocos, vão durar até o Carnaval?, ironizou Chico Alencar (RJ), líder do PSOL, um dos poucos partidos a não entrar na divisão da Câmara.

Em uma clara demonstração da divisão da base governista, o vice-líder do governo Beto Albuquerque (PSB-RS), aliado de Aldo Rebelo (PCdoB-SP), disse que o bloco de socialistas, trabalhistas, comunistas e outros tem o objetivo de garantir ?a formação do eixo de centro-esquerda desejado pelo presidente Lula?. ?O PT fez um eixo de centro-direita na Câmara. É um direito dele, mas nós atendemos a expectativa do governo de ter um bloco político mais à esquerda no Parlamento?, insistiu o vice-líder.

Apelidado de ?blocão?, a associação do PT com outros sete partidos, reúne as legendas que apóiam o petista Arlindo Chinaglia para a presidência da Câmara. No caso do segundo maior bloco, PSDB e PPS votam no candidato Gustavo Fruet (PSDB-PR) e PFL vota em Aldo Rebelo.