Foto: Chuniti Kawamura/O Estado

Bertholdo sendo preso: cotado para um ministério.

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A revista IstoÉ desta semana tem como assunto de sua reportagem de capa o ex-advogado Roberto Bertholdo, que se encontra preso em uma cela da Polícia Civil do Paraná. Bertholdo está preso há oito meses, acusados pelos crimes de tráfico de influência, compra de sentenças judiciais e lavagem de dinheiro.

A revista destaca que o advogado paranaense, antes de ser preso, era conselheiro da estatal Itaipu Binacional, circulava com desenvoltura nos bastidores dos Três Poderes e chegou a ser cotado para ministro do Desenvolvimento ou do Esporte, na última reforma ministerial, na cota do PMDB. Mas Bertholdo caiu em desgraça. Em novembro passado ele foi detido após investigação do Ministério Público.

A revisto IstoÉ desvendou um calhamaço de mais de 500 páginas que descrevem os detalhes do esquema que levou Bertholdo à prisão. Trata-se da Ação Penal Pública que corre na 2.ª Vara Criminal de Curitiba, em segredo de Justiça. Segundo a ação do Ministério Público, os delitos cometidos por Bertholdo envolvem ministros e ex-ministros do Superior Tribunal de Justiça. E mais: o esquema de lobby para venda de sentenças seria administrado por alguns dos filhos desses ministros. Para o Ministério Público, Bertholdo era o pivô, o elo entre clientes e o Judiciário.

O ex-ministro do STJ Vicente Leal e os ministros Medina e Galotti citados por Bertholdo em gravações. A ação, resultado de uma força-tarefa do Ministério Público com a Polícia Federal para investigar evasão de divisas e lavagem de dinheiro, revela o interior de esquema de corrupção na Justiça, em que aparecem desde falcatruas no governo, tortura física, até sexo.

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O ponto central da denúncia de cinco procuradores contra Bertholdo é o da oferta de suborno a ministros do STJ para reverter um caso em favor de um cliente. Bertholdo era advogado do empresário Antônio Celso Garcia, mais conhecido como Tony Garcia. Nas eleições de 2002, Tony Garcia era deputado estadual e candidato ao Senado pela segunda vez. E Bertholdo seu suplente. Para que pudesse se candidatar, Garcia precisava de um habeas corpus que trancasse um processo no qual era acusado de crime contra o sistema financeiro por envolvimento numa fraude do consórcio Garibaldi, liquidado pelo Banco Central em 1994.

Segundo relata a revista, Bertholdo foi então contratado para "limpar" o nome de Garcia. No dia 1.º de agosto de 2002, ele impetrou habeas corpus em favor de Garcia. É aí que começa a história de corrupção contada pelo Ministério Público, a partir da denúncia inicial de um ex-sócio de Bertholdo, Sérgio Costa Filho.

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Por conta de desentendimentos sobre dinheiro, Bertholdo chegou a espancar e torturar Sérgio Costa Filho, que deu o troco fazendo a denúncia.

De acordo com a denúncia de Sérgio ao MP, Bertholdo pediu a Tony Garcia R$ 600 mil, dinheiro que seria usado para que o então ministro Vicente Leal concedesse liminar no pedido de habeas corpus.

De fato, no dia 2 de agosto, a liminar saiu, por decisão do ministro Vicente Leal e, com ela, Tony Garcia pôde concorrer às eleições. No dia 8 de agosto, Tony Garcia emitiu um cheque de sua empresa, a Maggiore Comércio de Combustíveis Ltda., que foi depositado na conta da empresa de Bertholdo, a Antecipa Consultoria. Aos poucos, o valor foi saindo da conta em vários saques em dinheiro vivo, feito por pessoas como o motoboy Luiz Marcelo Alves.

Influência de Bertholdo cresceu com Lula

A revista IstoÉ afirma que "Roberto Bertholdo não é um preso qualquer". A influência do ex-advogado em Brasília remonta ao governo Collor, mas foi no governo Lula que ele cresceu de forma exponencial. Primeiro foi nomeado conselheiro de Itaipu, se aproximou de grandes fornecedores da estatal e, ato contínuo, sua casa em Brasília, no bairro do Lago Sul, virou um discreto reduto de conversas entre parlamentares, empresários e autoridades públicas.

Em seus negócios privados, Bertholdo virou o representante junto ao Banco Central do espólio do banco Bamerindus, que sofreu intervenção e foi vendido há uma década para o inglês HSBC. Saiu-se tão bem na causa que foi adquirindo participações da família Andrade Vieira, fundadora do banco, até se tornar dono de quase 70% dos direitos sobre o Bamerindus.

No início do governo, Bertholdo foi nomeado conselheiro de Itaipu na cota do deputado José Borba (PMDB). Segundo o processo, ele ajudava o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares a operar um esquema de remessa de dinheiro para Luxemburgo. Também teria operado, a partir de Itaipu, para irrigar com recursos as campanhas de candidatos do PT a prefeituras do interior do Paraná, como Maringá, Londrina e Cruzeiro d’Oeste.