Em meio a uma das mais graves crises econômica e política do País, a força-tarefa da Lava Jato garantiu, na semana passada, a destinação de verba para o Ministério Público Federal no Paraná e em outras unidades da federação onde venham a surgir novos fatos a serem investigados. A verba virá do acordo de leniência firmado com a Andrade Gutierrez, a segunda maior empreiteira do País.

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Uma das cláusulas do acordo homologado pelo juiz Sérgio Moro prevê que 10% do valor da multa de R$ 1 bilhão paga pela empresa seja destinado a custear as investigações da Lava Jato e “demais investigações reveladas por este acordo”. Com isso, os investigadores, não só do Ministério Público Federal de Curitiba, terão R$ 100 milhões para a manutenção das investigações independentemente de quaisquer mudanças políticas que venham a ocorrer com o eventual impeachment de Dilma Rousseff, que pode ser afastada pelo Senado nesta quarta-feira, 11.

Os outros 90% da multa, segundo prevê o acordo, serão destinados às estatais afetadas pelas fraudes cometidas pela Andrade “segundo proporção dos danos a critério do MPF”, diz o acordo. A multa definida por meio de negociação entre o MPF e a Andrade deverá ser paga em 12 parcelas mensais, corrigidas pela taxa Selic.

Obras ferroviárias

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O documento prevê ainda que a empresa entregue informações sobre ilícitos envolvendo as obras da Ferrovia Norte-Sul e Ferrovia Oeste Leste, que vão além das investigações da Lava Jato.

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As obras das ferrovias já foram alvo de uma operação da Polícia Federal de Goiás em fevereiro deste ano chamada “O Recebedor”, que apurou as suspeitas de desvios de R$ 630 milhões somente no Estado. Na ocasião foram utilizadas informações da delação de executivos Camargo Corrêa com a Lava Jato.

Agora, com novos elementos, as investigações envolvendo o setor ferroviário podem avançar paralelamente aos desdobramentos da Lava Jato, que desmantelou um megaesquema de corrupção na maior estatal brasileira, a Petrobras, envolvendo partidos da base de apoio do governo federal PT, PMDB e PP. Conduzida em Curitiba e em Brasília, a Lava Jato também avança sobre outros setores além da estatal petrolífera, como o energético.

A leniência funciona como uma delação premiada, só que de pessoas jurídicas e também traz benefícios aos executivos da empresa, que se livram de serem processados pelos casos que relataram. Neste acordo, contudo, os executivos da empresa que já fizeram delação com a Procuradoria-Geral da República não estão incluídos.

Com o acordo, a empreiteira tem que entregar tudo o que sabe, incluindo documentos e nomes de envolvidos em crimes de outras empresas, se comprometer a não se envolver em ilícitos e colaborar com as autoridades sempre que necessário. A empresa também deverá implementar um sistema de compliance para capacitar e manter práticas internas que evitem a corrupção.

Em troca disso, a Andrade permanece com o direito de contratar com o poder público e o Ministério Público Federal se compromete a não denunciar criminalmente nem propor ação cível contra os executivos da Andrade nos casos revelados por ela.

O acordo estabelece ainda que, além de multa de R$ 1 bilhão, a Andrade não se livra de pagar aos cofres públicos o preço dos danos causados nas licitações em que se comprovar que ela cometeu crimes.

Na segunda-feira, 9, como um dos termos do acordo, a Andrade divulgou um pedido público de desculpas nos jornais de todo o País.