O direito de greve deve ser respeitado. É um instrumento coercitivo para forçar negociações e reivindicar melhorias salariais e de condições de trabalho. Faz-se, no Brasil e em quase todo o mundo, por categorias, já que dificilmente um grupo de funcionários de uma única empresa teria condições e força de convencimento para obter o reivindicado, por mais justo que seja. Daí os sindicatos que, na mesa de negociações, colocam os problemas e soluções de suas categorias, em busca de um entendimento. Se não, parte-se para o dissídio coletivo e a greve continuará sendo a última e derradeira arma. Via exame do dissídio ou pelo julgamento da legalidade ou não da greve, é convocada a Justiça especializada, com poderes que podem ser tanto de chancela de decisões tomadas nas mesas de negociações, até imposições que busquem, se não o entendimento, pelo menos um mínimo de funcionamento dos serviços paralisados, em especial quando de interesse público.
A greve no serviço público foi por décadas proibida, porque o funcionário atende um público que será sempre a vítima de sua paralisação. Assim, faltava ao trabalhador empregado público uma arma eficiente para reivindicar, a paralisação. Na Carta de 1988, promulgada há quase duas décadas e endeusada como um documento-cidadão, o direito de greve dos funcionários públicos foi admitido. E, como tantos direitos e deveres nela consignados, ficou pendente de regulamentação. Até hoje existe, mas não funciona, pois o Congresso não se dignou regulamentá-lo por lei complementar.
Estamos agora assistindo a greves nos serviços públicos e uma que até o extravasa, a dos bancários, pois atinge também os empregados de bancos privados, cuja atividade é também de amplo interesse público. O governo Lula, oriundo de forças políticas que tanto lutaram pelo direito de greve, inclusive nos serviços públicos, resolveu lavar as mãos. No dizer do ministro do Trabalho, não vai intervir. Que se entendam patrões e empregados, com o auxílio, se possível, da Justiça especializada.
Essa ausência do governo, sendo petista e dito socialista, não se explica. Toma uma posição liberal ou neoliberal, deixando ao mercado que resolva problemas que evidentemente são públicos. Não se há de negar aos funcionários de governo ou não o direito de greve. Mas este direito tem de respeitar, pelo menos no essencial, a clientela dos serviços paralisados. Não se admite que pensionistas e aposentados deixem de receber. Ou que doentes graves fiquem sem assistência indispensável e possam pagar com a vida a briga entre patrões e empregados. Hoje já se vêem os grevistas desobedecerem as determinações da Justiça do Trabalho no sentido de que atendam os casos graves, mantendo um percentual de trabalhadores em atividade. Mais um motivo para que o governo não se omita.
Dá para entender, mas difícil explicar. Os homens que hoje ocupam o poder sempre defenderam as classes trabalhadoras. Muitas vezes as bajularam. E agora imaginam que com sua omissão poderão manter a simpatia de seus antigos eleitores e militantes. Mas plantam a condenação unânime da população prejudicada. E o Congresso, em recesso branco, não regulamenta esse direito de greve. Dedica-se a nada fazer, ou a questões menores.